sexta-feira, 28 de março de 2008

O ser humano e a pesquisa com células tronco embrionárias


O Grupo de Estudos Bíblicos da Paróquia reuniu-se duas vezes para tratar do assunto "pesquisa com células tronco embrionárias". Os acalorados debates denotam a complexidade do assunto e também sua importância para entendermos a nossa existência. Compartilhamos aqui este conteúdo para que também você possa formar opinião. Pastor Rolf Rieck


O ser humano – objeto, máquina, mercadoria ou Imagem de Deus?

Uma abordagem da questão da pesquisa com células-tronco embrionárias para leigos.

Qual o significado da pessoa humana diante da evolução da ciência e do conhecimento? Quando somos convidados a lançar nossos olhos para a imensidão do cosmo, no sentimos insignificantes. Somos muito menos que uma poeira neste universo. Estou falando do globo terrestre. E nós, seres humanos, somos muitíssimo menos. Como disse alguém que andei lendo, o ser humano é elemento marginal no cosmo. Como a Escritura vê o ser humano e a humanidade?

Salmo 8

Como podemos afirmar que não estamos à margem da criação de Deus diante das descobertas recentes da astronomia?

Somos também convidados a lançar nosso olhar para dentro de nós. Descobrimos que somos mecanismos biológicos, psicológicos e sociológicos. Portanto, somos seres muito complexos também no que se refere à vida aqui, agora. Olhando assim, percebemos que tudo é relativo ao nosso redor. Vivemos a relatividade. A vida e a morte tornaram-se relativas e sem muito valor (ou nenhum valor!). A vida, desta forma, ficou sujeita à exploração, à manipulação e ao desprezo de seres humanos como cada um de nós. Mas a Palavra diz algo diferente:

Salmo 139

Qual é o grau de significância do ser humano diante do Salmo acima? No pensamento neoliberal há de se perguntar qual o papel de Deus diante de uma economia sem coração e com a pobreza correndo solta também no Brasil. Somos objetos de negociação, de competitividade, objetos que precisam produzir cada vez mais para ter valor? Qual o valor comercial e produtivo de uma pessoa? O Salmo nos ajuda a responder isso?

Se tivemos que concordar com as afirmações acima, então teremos compreendido que o ser humano foi transformado em objeto, máquina e mercadoria. O ser humano nem sempre se dá conta disso. Ele tem valor enquanto puder produzir algo para o bem daqueles que tiram proveito desta situação.

Para que haja uma melhoria do ser humano, o próprio ser humano pensa que pode recriar-se, reinventar-se. A imperfeição da criação finalmente poderia ser dominada pela engenharia genética, por exemplo. É a “antropotécnica” a serviço do melhoramento da humanidade. Deus ainda tem alguma ingerência na vida humana?

Atos 17.28-31

A ciência é hostil à humanidade? Qual o valor e objetivo do ser humano? O vigor físico, a competência profissional, o ganho de valores são importantes ou relativos diante da dignidade humana? Como o texto de Atos nos ajuda nesta questão?

A

discussão da ética está relacionada aos direitos de cada pessoa. Em nosso tema em particular – bioética – está relacionada aos direitos da vida digna e justa e condicionada ao possuirmos ferramentas adequadas para fazer os julgamentos de valor na medida em que estes se relacionam com a distinção entre o bem e o mal.

Já vimos acima que somos, sim, imagem de Deus. Entendemos que esta imagem está consolidada por Deus na concepção. Acrescentamos agora o conceito de que também somos imagem de Deus pelo batismo, onde Ele nos chama pelo nome e onde coloca sobre nós Sua mão (Isaías 43.1). Dito diferente: o batismo passa a definir nosso conceito de direito e individualismo diante de Deus e das pessoas. Embora estejamos totalmente dentro do plano humano e biológico, estamos também totalmente dentro (ou não!) do plano espiritual, supra humano. Pergunta: a bioética não nos deveria fazer refletir sobre limitações, especialmente aquelas que não nos permitem dar fim ao sofrimento ou mesmo entender o sofrimento?

Gênesis 47.18 – 1º. Coríntios 6.19

Somos sempre limitados/limitadas pelo nosso locus, ou seja, somente podemos sentir o que acontece em nosso corpo. A visão antropológica de Gênesis confunde corpo com terra e terra com corpo. No entanto, esta visão é ampliada no Novo Testamento reenfatizando que esta “terra” é efetivamente habitada pelo ruah – pneuma espírito de Deus. Que valores o espírito de Deus agrega à pessoa? O espírito vale mais que o corpo? O corpo vale mais com o espírito?

A terapia com células-tronco embrionárias está levando a humanidade a uma fronteira altamente promissora e, ao mesmo termpo, problemática. Ela precisa ter muita clareza de que o ser humano não é criador de si mesmo e que somos seres finitos em nosso corpo.

Lucas 12.25

Acrescentar dias à nossa vida é um artifício justo diante da vontade de Deus?

Podemos – devemos! – tirar proveito das novas terapias, podemos festejar a abolição da humanidade das doenças que a atormentam geração após geração. Precisamos, por outro lado, avaliar muito bem o preço disso.

O poder do homem sobre a natureza acaba sendo um poder exercido por alguns homens sobre outros homens, tendo a Natureza como instrumento (...) Todo novo poder conquistado pelo homem é também um poder sobre outro homem. (Lewis, C.S. em Meilaender, Bioética.)

Gênesis 1.26-27 – 2º. Coríntios 4.4

O que significa ser criado à imagem de Deus?

É um privilégio o ser humano ter sido criado segundo a “fotografia” de Deus. Isto não apenas na sua exterioridade, mas principalmente no que se refere ao compartilhar a autoridade do Criador em relação a todas as criaturas. É o ser humano que determina a continuidade da criação divina, interagindo com ela responsavelmente (Gn 2.15). Esta prerrogativa, no entanto, não lhe dá a liberdade da irresponsabilidade como, p.ex., da secularização. O status atribuído ao ser humano de ser imagem de Deus lhe confere também o status de parceria com o Deus Criador.

Discutir a pesquisa genética e a cura de doenças a partir de células embrionárias descartadas, sem levar em conta a parceria com o Criador, é entrar no beco sem saída na manipulação da humanidade.

A parceria de Deus com a humanidade chama-se amor.

1º. Coríntios 13.13

De que forma esta tríade de valores absolutos pode influenciar a ética médica e a ética na biologia?

O amor de Deus é sumamente relacional. O que é relacional, influencia toda a humanidade. Na sociedade entre iguais e diferentes – também na sua constituição física e biológica – a mesma verdade do amor precisa ser vivenciada. No amor não há espaço para o descarte. No amor há espaço para doar-se. No amor há espaço, pasme, para a pessoa pecadora e para a pessoa imperfeita, porque continua imagem e semelhança de Deus (Gn 9.6, Tg 3.9)

Colossenses 1.13-20

Jesus é a perfeita imagem de Deus.

Vale, então, a famosa pergunta:

Em meus passos, o que faria Jesus?

“A liberdade total implica em responsabilidade absoluta”. Estai de sobreaviso, vigiai e orai; porque não sabeis quando será o tempo. (Mc 13.33)

quarta-feira, 12 de março de 2008

Visão - profecia - aniversário e outros desafios


Pregação nos Culto da Paróquia São Mateus no domingo dia 9 de março. Além do aniversário do município de Joinville, lembramos também os 41 anos de fundação desta Paróquia (12/03/1967). Sejam abençoados por Deus nesta leitura. P. Rolf Rieck


Ezequiel 37.1 Veio sobre mim a mão do SENHOR; ele me levou pelo Espírito do SENHOR e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, 2 e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale e estavam sequíssimos. 3 Então, me perguntou: Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Respondi: SENHOR Deus, tu o sabes. 4 Disse-me ele: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR. 5 Assim diz o SENHOR Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. 6 Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele e porei em vós o espírito, e vivereis. E sabereis que eu sou o SENHOR. 7 Então, profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu profetizava, houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu osso. 8 Olhei, e eis que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes, e se estendeu a pele sobre eles; mas não havia neles o espírito. 9 Então, ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o SENHOR Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. 10 Profetizei como ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé, um exército sobremodo numeroso. 11 Então, me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados. 12 Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Eis que abrirei a vossa sepultura, e vos farei sair dela, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. 13 Sabereis que eu sou o SENHOR, quando eu abrir a vossa sepultura e vos fizer sair dela, ó povo meu 14 Porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei na vossa própria terra. Então, sabereis que eu, o SENHOR, disse isto e o fiz, diz o SENHOR.


Minha mãe fez cirurgia de catarata em um dos olhos. Correu tudo muito bem. Dois dias depois foi levada pelo meu irmão ao consultório do médico fazer a retirada do tampão do olho. Quando seu olho operado estava livre, teria exclamado: "Que lindo!"


Ter uma boa visão é algo impagável. Recuperar a visão é maravilhoso. Você tem uma boa visão? Você já teve visões?


Visão – é experiência particular, portanto difícil de avaliar quanto a sua veracidade, a não ser confrontando-a com a Palavra do Senhor. A visão espiritual pode ser uma resposta de oração – como quando Eliseu orou ao Senhor pedindo que os olhos do seu moço fossem abertos e vissem a libertação –, pode ser um preparo para um período de aflições – como Jó experimentou –, pode ser uma revelação especial do Espírito Santo diante de algum problema ou desafio, pode ser igualmente um, digamos, atestado de pureza do coração – como Jesus o diz referindo-se aos bem aventurados que vêem a Deus por terem um coração limpo, ou pode ser uma espécie de “telescópio da fé”, ajudando outros irmãos e irmãs a se preparar para alguma nova situação na vida.


Creio que a visão de Ezequiel se adapta mais precisamente a esta última categoria: serviu de “telescópio da fé”. Vendo o que viu, passou a profetizar.


No mundo em que vivemos – e não temos outro para fazê-lo, pelo menos por ora – cada vez mais são necessários os incentivos para que se veja esperança. O povo cristão neste mundo é um povo que destoa com as realidades ao nosso redor. Dito diferente: o povo cristão não se contenta em deixar as coisas do jeito que estão. Não faz parte da natureza da pessoa que tem compromisso com Jesus Cristo – e isso vêm desde o nosso batismo – o acomodar-se “deixando a vida me levar”.


Observar os fatos ao redor munidos de um “telescópio da fé” (expressão cunhada por P. Russel Shedd) leva o povo de Deus a protestar e a sonhar com outras realidades – justas, vividas em amor, recheadas com a verdade, alegria e dignidade.


A visão constrangedora e inusitada de Ezequiel o leva a profetizar.


Profetizar é o ato através do qual a pessoa tocada por Deus, pelo Seu espírito, declara o plano de Deus para com a humanidade toda, a partir daqueles e daquelas que crêem naquilo que Deus mostra.


Ao contrário do que muitos “crentes sensacionalistas” fazem por aí, profetizar não é dar “profetadas”. Profetas são supostas profecias que são anunciadas através de uma montagem de cenário, ou seja, através de palavras de efeito e teatro. Não são revelação de Deus mas causam muita sensação. Ezequiel profetiza. Não monta um cenário, mas descreve o que vê.


Ao contrário da “profetada”, a profecia tem por objetivo criar uma relação do ou da ouvinte com Deus através das Escrituras. São as Escrituras que proporcionam o nascimento da fé à “A fé vem pela pregação, e a pregação pela palavra de Cristo.” (Rm 10.17) A pregação da igreja cristã sempre aponta para a ação de Cristo Jesus – caso contrário será algo semelhante à “profetada”, apontando para feitos humanos extraordinários.


Pregação significa originalmente ouvir. O ouvir produz fé e fé produz transformação. Já pensaram que extraordinária transformação – ossos desconexos criando tendões e carnes e se reunindo, se agrupando (clec, clec, clec - v.7) e formando novamente vida e esperança onde isto tudo passava só muito longe?


A profecia faz o ouvinte ouvir palavra que produz fé, esperança e transformação. A profecia e a visão apontam para Jesus que justifica, salva e dá vida eterna. A profecia que aponta para Jesus faz o ouvinte ouvir a voz do Espírito Santo (v.14). O Espírito Santo anima e faz viver, como vento refrescante em meio ao calor sufocante. O Espírito que proporciona a visão, que abre a boca do profeta que fala, revela o poder restaurador de Deus – transforma.


No poder do Espírito, proclamamos a reconciliação. Reconciliação é transformação de valores que trazem a morte e o isolamento em possibilidades de convivência e alegria.


O lema da nossa Igreja para 2008 reza: Velhinhos e velhinhas sentarão nas praças de Jerusalém e as praças ficarão cheias de meninos e meninas brincando.


Nossas praças estão cheias de traficantes! Aqui em nosso bairro temos duas ou três ocupadas por traficantes. Falar de Jesus a estas pessoas é conceder-lhes a oportunidade de terem uma nova visão de vida. Seus ossos espalhados podem novamente formar vida digna a partir do Evangelho restaurador de Cristo Jesus.


O profeta nos faz ter contato com o Espírito de Deus. O Espírito de Deus passa, então, a juntar nossos ossos, passa a nos dar vida e esperança. Isso tudo de três maneiras:


  • nos faz ler a Bíblia,
  • nos converte em pessoas novas – vida nova – vida que vem de cima (genethen anothen),
  • nos santifica para atitudes de reconciliação e respeito mútuos.

Entregue a sua vida ao Senhor Jesus Cristo. Ele lhe dará uma nova visão. Você transmitirá uma nova visão. Ela não será política ou antropocêntrica. Será uma visão restauradora por inteiro, a partir da ação do Espírito Santo.


41 anos de testemunho cristão já são concedidos à Paróquia São Mateus. Hoje damos graças a Deus por isto. É tempo que trouxe muitas transformações não somente na vida de membros desta Igreja, mas também por muitas pessoas que aqui passaram.


41 anos foram poucos, no entanto, diante dos crescentes desafios em nossos bairros, área de nossa São Mateus. O que podemos profetizar? O que podemos anunciar? Qual tem sido o peso da nossa proclamação evangélica reconciliadora?

quarta-feira, 5 de março de 2008

Diálogo com Nicodemos (II)


Nikodemos, Nikodemos, ean me tis genneten anothen,

hou dinatai idein ten basileian tou Teou,
hou dinatai idein ten basileian tou Teou.

João 3.7 Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. 8 O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito. 9 Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? Acudiu Jesus: 10 Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas? 11 Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o nosso testemunho. 12 Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais? 13 Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem que está no céu. 14 E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, 15 para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. 16 Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

17 Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Na semana passada ressaltamos em nossa pregação baseada em João 3.1-17 a palavra chave da transformação do ser humano e da humanidade: genneten anothen. Nascer para uma realidade radicalmente nova é o presuposto para uma vida transformada e restaurada. Uma vida com valores nobres e dignos só é possível a partir do reconhecimento de que “de cima”, “do alto”, de Deus advem um nova realidade. Como vimos, toda esta exposição dos propósitos de Deus em reconciliar consigo a humanidade é feita a uma pessoa chamada Nicodemos. Portanto, agora, temos o

Diálogo com Nicodemos (II).

Você se admira se eu disser que toda a mera tradição cristã que lhe traz aqui, neste culto, nesta igreja, não vale para nada? Se eu lhe disser que batizar por batizar, trazer filhos e filhas para o Ensino Confirmatório, que agendar a participação anual na Ceia do Senhor na época da Quaresma é lixo, você se escandaliza? Se eu lhe disser que a minha vida e a sua vida somente tem algum sentido se genneten anothen, nascermos de novo ou, como vimos na semana passada, houver uma mudança radical em nossa vida com Deus?

Vimos também que Jesus chama seu interlocutor para colocar-se debaixo do lavar regenerador e restaurador da água e do espírito. Claro, Deus não é fatalista e não se alegra com a desgraça das pessoas que teimosamente vivem sem a sua intervenção na vida. Por isso Sua palavra esclarece: “...mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”. (Tt 3.5-7)

Como entender isto?

Uma anedota conta que Martin Lutero, tarde da noite, estudava em seu quarto em Wittenberg. O diabo, se esgueirando por entre as casas da cidade naquela noite percebeu que aquele homem ainda trabalhava e resolveu incomodá-lo. Debaixo da janela iluminada o diabo chama: “Aqui mora o doutor Martin Lutero?” O reformador ouve e reconhece a voz tenebrosa, corre para a janela, abre com força a vidraça e grita para baixo: “Não, o Martin Lutero que você procura já morreu faz tempo. Quem mora aqui é Jesus Cristo!” Ao ouvir isto, o diabo recolhe o rabo entre as pernas e vai embora.

Onde o velho homem morre – aqui como uma expressão que engloba toda a humanidade com sua natureza pecadora (Rm 3.23) –, a nova identidade irrompe. Paulo também disse isso: ”... logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20). O Novo Testamento também usa a expressão “estar em Cristo” (pelo menos 80 vezes), que literalmente quer dizer envolto por Cristo como que se vestindo de Cristo.

Estar em Cristo, ser de Cristo, não ser mais fulano ou siclana, significa ser pessoa com uma atitude totalmente nova, um perfil totalmente transformado, uma motivação de vida totalmente diferenciada. Não se trata de arrumar um pouquinho aqui, melhorar um pouquinho ali. genneten anothen é viver em uma nova dimensão e ter diante de si um novo horizonte de vida.

Todos nós nascemos da carne. Isso Nicodemos entendia bem. Mas como Mestre em Israel ele ainda não entendia o nascer do espírito. Também não entendia que o espírito é como vento – ruah – pneuma – que sopra onde quer. Vem de longe, de lugares desconhecidos e vai novamente para onde não sabemos. Assim, misteriosa, é a pessoa que nasce de novo. Inexplicável!

Com o avanço da ciência, especialmente com a capacidade de análise cerebral funcional, tem-se detectado nas pessoas áreas cerebrais com atividades mais intensas na região associada à fé. Com isso querem dizer que a fé faz parte de uma constituição física congênita. Algumas pessoas, em sua constituição física, tem uma facilidade maior de ter fé. Isso, no entanto, ainda não explica que a transformação acarretada pela compreensão do “novo nascimento” pode ser tão radical nas pessoas. E que pesoas antes duras e insensíveis para o Evangelho, se rendem aonovo nascimento.

Nascer de novo continua sendo inexplicável e só compreensível pela fé em Jesus e pela graça de Jesus. Isso Nicodemos, Mestre e teólogo, não sabia explicar. Precisava vivenciar!

Há quem pense que um assunto desses pode deixar algumas pessoas fanatizadas, fora de seu eixo racional do entendimento das coisas. Fé nunca foi dissociar o entendimento intelectual das coisas ao nosso redor. A fé em Jesus faz ver além, simplesmente isso. Jesus explica a Nicodemos que aquelas coisas que compreendemos do ponto de vista terreno são apenas um lado da moeda. A vida não se limita às coisas terrenas.

Jesus nos faz levantar os olhos e ver as coisas a partir do ponto celestial. Ele que de lá desceu, “... não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.6-8).

Concretamente: Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. De forma simples e objetiva Jesus expõe seu plano de salvação para Nicodemos e para todos nós.

Nascer de novo – genneten anothen significa não mais colocar a confiança no “doutor” ou “doutora” que há dentro de nós. Crer como pessoa nascida com novos valores significa estar convicto/convicta da verdade para a qual somos levados/levadas pelo vento do Espírito Santo, que transforma radicalmente nossa alma e espírito tornando-nos um com Cristo, em Cristo e para Cristo.

Nascer de novo é confiar em Jesus como capaz de resgatar a nossa vida para uma fé salvadora.

Para não esquecermos: a tradição que faz com que muitas pessoas se considerem luteranas de carteirinha, é importante mas não é tudo. O batismo com o qual fomos batizados revela em nossa vida a vontade de Jesus: para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Mas quer de nós o segundo passo: crer e viver em Cristo. “...porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes”. Gl 3.27

Você é alvo desta pergunta: já nasceu de novo? Isto não é um julgamento, ou pergunta feita para lhe colocar contra a parede. É pergunta de salvação porque “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”.

Amém!


P. Rolf Rieck