domingo, 26 de agosto de 2007

VISÃO RESTABELECIDA


O culto estava bem frequentado, hoje pela manhã. Abaixo, reparto a prédica que também irei proferir hoje no Culto Noturno. Boa leitura é o que eu, Renato Luiz Becker, lhes desejo...

Gente querida!

A maioria de nós aqui presentes, vê bem. Não somos capazes de imaginar o que se passa na cabeça de uma pessoa cega, desde nascença. Muitos de nós têm enorme dificuldade de ler o jornal, se não estivermos assessorados com óculos. Em Marcos 8.22-26 se lê a história de um sujeito que era cego... 8.22 - Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse. 8.23 - Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa? 8.24 - Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando. 8.25 - Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito. 8.26 - E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia...

A CURA DO CEGO

Sabemos pouco sobre este homem cego. Desconhecemos seu nome e não nos é dito porquê ele era cego. Teria sido um acidente? Sua cegueira era de nascença? Ou será que o mundo foi tão duro com ele a ponto dele somente querer permanecer de olhos fechados?

A Bíblia diz que Jesus se envolveu com o tal cego. Que o levou a sério, no momento em que o conduziu para fora da aldeia, para longe dos curiosos. Agindo assim, Jesus propiciou-lhe confiança. Jesus põe suas mãos nele e umedece seus olhos com saliva. Ela significa aquilo que de mais íntimo Jesus tem para repartir. E Ele reparte isso com o cego. Num primeiro momento o cego só consegue ver sombras. As pessoas lhe parecem ser como árvores que andam. Ele precisará dar mais alguns passos para poder ver perfeitamente como nós vemos. Áqui, a cura que Jesus faz é gradual, tem dois momentos.

O fato é que o PDs está curado. Por causa de Jesus, muita coisa mudou na vida daquele homem. Não temos informação de de como a vida daquele sujeito se desenvolveu pós-cura. Um detalhe, no entanto, está claro: Jesus abriu os seus olhos e ele pode ver, pode conviver com as belezas e com as tristezas que o mundo carrega em si.

A palavra chave deste texto me facina: Ele ficou restabelecido. Não foram só os seus olhos que experimentaram a cura. Toda a sua vida passou a ter um outro sentido. Quer dizer, ele se converteu num cidadão com um novo alvo a ser alcançado. Agora ele podia lutar melhor para realizar os seus sonhos. Quero sublinhar este aspecto: a cura proporcionada por Jesus não se restringiu somente em torno da sua boa visão.

Penso que o cego do nosso texto não ficou de rosto caído, não precisou mais olhar para longe, quando em contato com os detalhes ruins que continuaram a acontecer à sua volta. Junto à boa visão ele pode ver, ouvir, pensar e sentir. Esse equilíbrio é importante para que a que qualquer pessoa possa ter uma boa relação com o mundo que a cerca; para que ela não venha a sucumbir por causa das tristezas que grassam dentro do seu peito.

Agora vou puxar esta história para os dias de hoje. Jesus também nos quer tomar pela mão e, depois, abrir os nossos olhos; endireitar os nossos caminhos. Mesmo vendo bem, muitas vezes, podemos nos encontrar cegos. Dou três exemplos:

1. Uma mulher está cega de ciúmes. Ela só mede a sua vida pela vida dos outros. As pessoas de suas relações se apresentam melhor, elas têm um manequim mais bonito, a casa delas é maior em m², elas possuem um melhor emprego e têm mais dinheiro. Uma tal crise leva esta mulher a fazer dieta. Ela se esforça e fica magrinha como uma destas modelos de revista. Ela não tira os olhos do seu cônjuge, porque tem medo de perdê-lo para outra mulher mais bonita, mais rica, mais jovem. Ela está cega. Ela não vê as suas capacidades, não vê a sua própria beleza e nem tampouco o amor que os outros lhe doam. Ela tem um complexo de inferioridade e quase nunca consegue levantar os seus olhos para olhar o mundo como ele de fato é.

Como poderão ser abertos os seus olhos? Como ela poderá ser restabelecida? Talvez, através de uma criança que não pergunta por poder, dinheiro e beleza... Uma criança que só necessite de alguém que esteja ao seu lado e brinque, que ria e que a carregue em seus braços, que lhe faça carinho. A confiança de uma criança é algo que faz com que a gente se sinta a pessoa mais importante do mundo. Só quem experimenta uma coisa assim, pode ser carregado com amor e confiança, pode viver de novo com os seus olhos abertos.

2. Um jovem está cego de raiva e ódio. Ele bate em pessoas indefesas nas paradas de ônibus. Ele se droga nas esquinas e assalta à mão armada. Ele não têm perspectiva de um emprego porque não teve acesso à educação. Sua vida está tomada de um vazio enorme e, por estas e outras, agride como pode. Em grupo, este jovem sente-se mais forte. Seus olhos nunca foram abertos para as boas qualidades que têm em si, nem tampouco para os limites que deve observar. Na maioria das vezes foi esquecido e isso gera ódio. Como não vê futuro para si, toma o futuro dos outros.

Jesus também quer abrir os olhos desse moço, quer restabelecê-lo. Talvez isso vá acontecer a partir de uma ONG e ou de mulheres e homens comprometidos com a justiça; de gentes que fazem um trabalho engajado no Governo e ou de pessoas que se especializaram na área da juventude e que, por isso mesmo, entendem das frustrações que a juventude sente; de pessoas que tenham a capacidade de indicar e de ajudar a trilhar novos caminhos; de indivíduos que lhe abram perspectivas; de lideranças que desmontem conflitos com boas palavras e boas idéias.

3. Um casal está cego de amor. Ele diz "Só queremos o teu bem", quando se dirige ao seu adolescente com o objetivo de criticar seus amigos, a escolha da sua profissão, a maneira como educa os seus netos. Muitas e muitas vezes, relações afogadas em amor acabam terminando em rupturas familiares. Os nossos filhos precisam ter a chance de fazer os seus próprios erros para, então, poderem se alegrar com as suas vitórias e conquistas.

Pais cegos de amor não compreendem que precisam largar os seus filhos. Porquê não conseguem se libertar do papel de pais, eles também não permitem que os seus filhos se afastem deles – e tudo isto por causa do medo de ficarem sós. Agindo assim, acabam não tendo mais olhos para a vida que acontece ao redor, para as próprias tarefas, para as pessoas que estão próximas e que carecem da ajuda de fato.

Jesus quer abrir os olhos dos pais e, junto, restabelecê-los e isso, através do trabalho que a Igreja promove aqui na São Mateus. Há tantas pessoas que precisam de calor e de amor. Entre nós, há pessoas que carecem das experiências vividas e compartilhadas. Se estes pais derem de si fayendo isso, poderão contar novas histórias para os seus filhos e, junto, ficar orgulhosos que são úteis para a sociedade.

CONCLUSÃO

Cego de ciúmes, de ódio e de amor – três exemplos de pessoas que vêem mas não vêem. Três motivos indicadores de que precisamos de alguém que nos tome pela mão, que nos abra os olhos e aponte para as perspectivas no horizonte. Recém-nascidos enxergam tudo nebuloso. Ja pessoas adultas vêem bem a beleza e as dificuldades que o mundo tem. Num primeiro momento, alegremo-nos. Num segundo choremos e, depois, combatamos as dificuldades com o exercício dos nossos dons. Se a capacidade de alegrar-se e indignar-se estiverem no mesmo nível, então estamos em ordem conosco mesmos, tal como o cego do texto de Marcos. Agora, vivamos com os olhos abertos.

"Os olhos do espírito começam a ver bem, quando o corpo dá sinais de perder a força” escreveu Platão. Esforcemo-nos, já agora, para percebermos as coisas que nos rodeiam com os olhos do Espírito, com com o olhar da Fé. Amém!

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Ponto!


Ontem tive o privilégio de estar com o Grupo de Pessoas Enlutadas da Paróquia Sao Mateus. Na oportunidade trabalhamos o texto que escrevi abaixo. Penso que ele nos ajuda a refletir sobre a morte. (P. Renato Luiz Becker)


A Bíblia é clara: Jesus já libertou as pessoas que durante toda a sua vida estavam escravizadas pelo medo da morte. Porquê eu posso afirmar isso? Ora, porque em Hebreus 2.15 se lê “...e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.”

Outro dia tive pensamentos sobre a morte durante o café da manhã. É lógico que perdi o apetite. Misturar o tema morte com momentos tão íntimos, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas quando é que pensamentos de morte têm alguma coisa a ver conosco? Estes pensamentos sempre vêm nas horas impróprias, mais inoportunas. Penso que eles vêm à nossa cabeça tal como a morte vem para nós – de repente e sem que a gente os espere.

Eu tenho medo da morte? As vezes fico tranqüilo a respeito. Já sou um sujeito “rodado” que viu muita coisa diante de si. No entanto, também não sou tão idoso como pareço ser. Mesmo assim, me vêm os pensamentos sobre a morte e estes acabam mexendo demais comigo.

Conheço pessoas cuja filosofia de vida é “deixar que a vida os leve para onde ela levar”. As vezes eu fico com um certo ciúme dessas pessoas que conseguem pensar e agir assim. Mas daí me pergunto: Será que podemos nos dar o luxo de nos permitir tão alto grau de leviandade para com este assunto que tanto nos diz respeito?

Outro dia li as palavras escritas do escritor Mascha Kaleko: "...a própria morte a gente morre, mas com a morte do outro a gente precisa conviver”. O famoso filósofo grego Epicuro disse: “Quando eu sou, a morte não é; e quando a morte é, não sou mais.” Nós vivemos a morte enquanto carregamos pessoas queridas ao túmulo. Os recados que estas situações de dor nos trazem são marcos para que possamos trabalhar a nossa própria morte. E é justamente isso que nos faz, cedo ou tarde, ficarmos sem medo dela.

O texto de Hebreus diz que o “medo da morte nos escraviza”. Como pode ser uma tal escravidão? Ora, o medo pode nos caçar como se caça coelhos no mato. O tempo parece escapar das nossas mãos, enquanto somos caçados. Nós corremos como se corrêssemos pela nossa vida e o medo acaba se “comunicando” conosco dentro dos nossos ouvidos: “Não deixe escapar nada, viva intensamente”. Nesse ritmo, o medo acaba nos “nocauteando” e acabamos nos deixando convencer de que “as coisas não têm mesmo sentido”.

Mas o que é isto? Jesus Cristo nos libertou da escravidão da morte. Porque Ele venceu a morte é que podemos ver uma luz no final do túnel. Daí que não precisamos mais ter medo do medo da morte. Ponto.

domingo, 19 de agosto de 2007

Fé é sinônimo de resignação? ou Crer não é brincar!

Fé!

Provavelmente a palavrinha mais misteriosa e enigmática que se tem na linguagem humana. De forma objetiva, o que é fé para você?

Olhando para o termo bíblico grego para fé no NT (o AT não tem um substantivo para a palavra fé), encontramos a expressão pistis que fala de induzir alguém a crer em algo através do uso de palavras – tipicamente grega esta definição. Mas também significa “escutar, obedecer, submeter-se a, sujeitar-se a, confiar, ter confiança, estar confiante”. Isto é tudo? É o suficiente?

Uma das obras referenciais para o estudo de termos relevantes e seu uso na religião e na sociedade e história (RGG) usa as páginas 1586 até 1611 para ensaiar uma definição da palavra. Será que terá conseguido?

Hebreus 11.29 Pela fé, atravessaram o mar Vermelho como por terra seca; tentando-o os egípcios, foram tragados de todo. 30 Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias. 31 Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias. 32 ¶ E que mais direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir o que há a respeito de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas, 33 os quais, por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, 34 extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. 35 Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição; 36 outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. 37 Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados 38 (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra. 39 Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, 40 por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados. 1 ¶ Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta 2 olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

Fé não é filosofia! Fé não é idéia! Fé não é imaginação! Fé não é discurso!

O texto bíblico aponta claramente o lado prático e existencial da fé cristã.

Fé não é coisa para quem tem medo de entrar em bola dividida. Fé não é um estado de espírito para tranqüilizar a alma aflita. Fé não é meditação transcedental ou uma posição de yoga. Fé não é trancar-se no quarto, debaixo de uma pirâmide, e dizer que tem uma fé muito forte. Fé não é isolamento...

Fé é...?

...ação!

Na igreja cristã a fé historicamente foi se tornando a consciência de um punhado de normas e verdades que garantiriam um bem estar espiritual mais elevado – quem sabe até a salvação. No entanto, olhando para a galeria da fé em Hebreus 11, e de resto em tudo que temos dos patriarcas da igreja, logo percebemos que “fé” está viceralmente relacionada à obediência. A centralização da fé está na pessoa de Jesus Cristo. Em Jesus está centralizada toda a verdade, Jesus abrange toda a verdade a respeito da humanidade e suas buscas. Portanto fé e Jesus são conceitos inseparáveis.

Por isso fé é vida.

Vida é ação. Não encontramos elementos que pudessem atestar que fé é resignar. Muito pelo contrário, ela é ativa! Desde o momento em que o ser humano nasce para a vida com Jesus tem a consciência de que seu objetivo está muito além das coisas que o rodeiam – seu objetivo está na eternidade, na nova pátria, no lugar para ele preparado por Jesus, a morada celestial (João 14). E “fé”, portanto, é tudo o que acontece nesta trajetória do nascimento espiritual até a morte.

Foi neste tempo que o povo de Israel, pela fé, atravessou o Mar Vermelho. Ou seja, quando todas as possibilidades haviam se esgotado – o exército inimigo nas costas e um mar intransponível pela frente – deram o primeiro passo dentro da água e ela se abriu. Fé é ação!

Foi “fé” que moveu a prostituta que vivia em cima do muro de Jericó a fazer acordo com os espias do povo de Israel. Ela e sua família foi poupada do extermínio e ainda virou referência de coragem e ousadia na genealogia de Jesus. Fé é ação!

Foi fé que moveu Abraão, Isaque, Jacó, Josué, Gideão, Davi, Salomão, Isaías, Jeremias, Oséias e outra longa lista de pessoas de carne e osso – com seus medos e temores – fazendo-os agir sem temor.

Assim, neste vale de dor no qual vive a humanidade, a fé coloca objetividade e sentido na ação cristã.

Confessar Jesus não é brinquedo, pode custar muito, meu irmão!” diz a música. Como fé é ação, há de se ter consciência também do preço da fé. “Alguns foram torturados, (...); outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.” Tudo porque, pela fé, não podiam negar a verdade e a justiça de Deus às pessoas desprovidas de cuidados e de conhecimento.

Que preço tem a nossa fé? A vendemos por uma propina? Por uma promoção no emprego? Que preço estamos dispostos a pagar pela integridade da nossa confiança em Deus?

Não somos proprietários de fé, e sim, recebemos a fé de presente. Não se compra e nem se vende.

...presente!

Toda pessoa que passa a crer em Deus – pelo seu novo nascimento como tomada de posse da bênção do batismo – recebe de presente a fé. Não como convicção espiritual ou cultura, mas sim uma férrea disposição de viver e lutar pela Verdade, “...olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.” Jesus não somente é origem ou a causa ativa da fé, tornando-se assim o maior de todos os exemplos da galeria da fé, mas é também aquele que concretiza uma fé digna, uma fé de destaque pela sua perfeição. Em Jesus vemos a fé perfeita e completa.

Esta fé é dada de presente a quem crê.

Medo de bola dividida? É melhor não jogar futebol ou, no mínimo, é não saber jogar futebol. Medo das conseqüências da fé verdadeira e genuína? É, certamente, uma vida qua ainda não recebeu ou não compreendeu o presente da fé cristã.

É evidente que temos amor à nossa pele. Ninguém, de sã consciência, gosta de sofrer. Quando o fogo queima, rapidamente tiramos a mão. Reagimos assim. Com a fé cristã, presente de Jesus aos que crêem, é diferente: tem coragem e determinação de enfrentar a injustiça e todas as suas manifestações, tem coragem de enfrentar a falta de amor e verdade testemunhando o caminho que é Jesus.

Quais têm sido as atitudes de fé da Igreja de Cristo em solo brasileiro?

Com que conseqüências a minha fé pessoal tem contribuído para a mudança da sociedade brasileira?

...conclusão!

Fé é algo intenso. É adrenalina, como gostam de dizer os mais jovens. É decisão! Você está apaixonado pelo Autor e Consumador da fé? Você chega, agora, à conclusão de que a fé em Jesus é decisiva no seu testemunho da justiça e da verdade? Só pela fé podemos dizer que: “...não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”. (At 4.20)

Pregação dos cultos de 19 de agosto de 2007 / P. Rolf Rieck

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Semeadura e Colheita


Nesta noite compartilhamos a seguinte mensagem no Culto de Oração. (P. Rolf Rieck)


O QUE SE SEMEIA, ISTO SE COLHE!

Leia Oséias 8.7-14


A afirmação é antiga e ninguém discute a veracidade desta afirmação.

Esta palavra tem sido explorada à exaustão:

Quem cultiva o mal e semai maldade, isso também colherá. Jó 4.8

Quem semeia a injustiça, colhe a maldade. Pv 22.8a

...aquilo que o homem semear, isso também colherá. Gl 6.7

A sabedoria chinesa também se pronuncia sobre o assunto: O plantio é opcional mas a colheita é obrigatória. Por isso, cuidado com o que planta.

Em um culto voltado para a ORAÇÃO também plantamos. E neste momento de reflexão, o que poderemos colher a partir desta palavra do profeta? Oséias, como todo profeta do Senhor, faz denúncia de situações que desagradam a justiça de Deus. O profeta é muito duro em suas palavras. Não fala de si e nem por si; fala da boca de Deus. Ele aponta para o povo de Deus que a colheita sempre corresponderá àquilo que foi semeado. Por isso a colheita pode ser terrível - trazendo conseqüências devastadoras - na vida de pessoas e mesmo sobre uma nação inteira. Pessoalmente podemos observar conseqüências terríveis na vida de famílias quando más sementes são lançadas: erros não confessados, impostos não pagos, rendimentos não declarados, amizades não selecionadas, envolvimento sexual ilícito, dependência de drogas... fé vacilante em constante necessidade de mudar de opinião... São tudo sementes que germinarão, brotarão e se reproduzirão. E todos sabemos que o inço, o mato, cresce mais rápido e fácil que a semente cuidadosamente deitada na cova de terra para crescer.

Por que estas sementes parasitas se reproduzem tão rapidamente? Quem as planta? Que ventos as trazem? Que poder pode impedí-las de serem espalhadas por este mundão?

Acredito que o povo do Senhor, alvo das críticas e denúncias de Oséias, também não estava satisfeito em colher desgraças. Acredito sinceramente que até procuraram se esforçar para agradar Deus, que tentaram guardar Seus mandamentos, etc, etc e etc. Uma prova disso é que construíram altares. Vários altares. Em todos locais importantes foi erigido um altar para oferecer sacrifícios pelos pecados. Mas tornaram-se altares de pecados. Caramba, parece que este ciclo de desgraças não tem mais fim.

Nossos muitos altares hoje podem ser representados pelas múltiplas atividades nas igrejas – e nós, São Mateus, não estamos isentos desta observação –, pelas inúmeras regras que são impostas para "obter-se a salvação", seguindo este ou aquele jeito de ser, repetindo estas ou aquelas palavras, reproduzindo gestos ensaiados e sem sentido. Quanto da nossa espiritualidade moderna-pós-moderna é fruto de construção de nossas próprias mãos? Quantas "cidades espirituais" temos construído, com isto tentando justificar o sentido da vida? Diz o profeta que Deus enviará fogo sobre tudo isso. Não sobrará nada!

Fatalismo! Fatalismo?

São feitas duas considerações no texto lido da origem desta colheita de podridão: não levaram em conta o ensino do Senhor, antes o consideraram algo estranho e esqueceram-se do seu Criador.

Se esta palavra é, neste momento, nosso espelho, perguntemo-nos pela imagem que este espelho esta mostrando a nós. Quais serão as conseqüências da semeadura em nossa igreja, em nossos altares?

Podemos, sinceramente, estar semeando boa semente - assim acreditamos - mas os resultados das colheitas nem sempre atestam a boa qualidade das sementes. Sinceramente acredito que diante desta palavra só nos resta a alternativa de esperar pela misericórdia de Deus e colocar sobre o Seu altar a nossa oração pedindo por perdão e orientação para agir. Temos usado este altar único da oração?

Lutero disse que assim como o ofício do alfaiate é fazer vestimentas e o ofício do sapateiro é fazer sapatos, o ofício do cristão é orar. Tenha plena convicção que a semeadura que acontece debaixo de oração, terá como resultado a boa colheita. A semente jogada sem oração, é sufocada e contaminada. Dela não pode sair boa coisa.

Oradores - a igreja precisa de oradores. Em primeiro lugar não como uma questão de número de pessoas, mas sim pessoas dispostas a esfolar o joelho intercedendo. Mas que isto também se traduza em números, como um verdadeiro exército que ora ao Senhor.

Que este incenso da oração queime sobre nossos altares. Amém.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

ESPERANÇA

Hoje, por ocasião de um encontro de lideranças da Paróquia São Mateus, compartilhei a meditação abaixo...


Há esperança para o teu futuro – diz o Senhor.” (Jeremias 31.17a)


Outro dia conversei com um sr. mais idoso que me disse: - "No dia em tiveres a minha idade, tu não terás mais nenhum futuro.” Conheço a sua família. Nos tempos de juventude esse homem viveu cada minuto com muita intensidade. Na sua época de juventude ele acabou quebrando todas as regras e nunca conseguiu caminhar por caminhos ditos normais. Faz alguns meses que ele entrou em crise. Sua situação de saúde que não tinha a menor perspectiva mudou muito nos últimos meses. Mudou tanto que hoje ele até já consegue sorrir.

A verdade é que Deus sempre tem em mente caminhos que desconhecemos. Ele pode nos presentear com nova esperança e com novo futuro, mesmo que não vislumbremos nada disso. As vezes são caminhos difíceis de serem trilhados. O fato é que Ele tem um plano para conosco. Deus pode mudar todas as coisas de uma hora para a outra, mesmo que tudo esteja escuro à nossa volta. Ele tem poder para endireitar simplesmente todos os nossos caminhos tortuosos.

Aqui, lembro do povo de Israel? Eles estavam fugindo do exército inimigo que os perseguia e, de repente chegaram à praia, à margem do mar. E agora? Fazer o quê? Pois não é que Deus, do nada, criou um caminho pelo meio do mar para que passassem a salvo. Deus quase sempre arruma um jeito de tirar os seus filhos das enrascadas em que se metem.

Lá onde acabam as possibilidades humanas é que comecam as possibilidades de Deus. É do senso comum que num certo dia a nossa vida vai acabar. Mas é justamente neste dia que a nossa maior esperança e o nosso maior futuro começarão prá valer. E tudo porque a morte é uma ponte para a vida. Por meio dela iniciaremos a viver eternamente com Deus. Quer dizer, temos um grande futuro e uma grande esperança diante de nós.

domingo, 12 de agosto de 2007

Feliz dia dos Pais!


Abaixo, a prédica que proferi na noite do Dia dos Pais, por ocasião do Culto de Louvor, às 19.00h. (Renato Luiz Becker)


Convido vocês a, junto comigo, dizermos as palavras do Credo Apostólico...

"Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos, ressuscitou no terceiro dia, subiu ao céu e está sentado a direita de Deus Pai, Todo-Poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa Igreja cristã, a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna. Amém."

Perceberam? Nós acabamos de confessar que “Jesus... subiu ao céu e que Ele está sentado à direita de Deus, Pai, Todo-Poderoso...” Gente! Eu ouso dizer que para Jesus, o ato de “subir ao céu” foi “chegar em casa” depois de um longo tempo de ausência. Foi um retorno para junto do Seu Pai, depois de 33 anos sem vê-Lo. Sim, depois de ter sentido medo, de ter sido torturado, de ter experimentado o abandono de Deus na cruz, Jesus estava finalmente de volta, encharcado de carinho e envolto na segurança dos braços de seu Pai.

As histórias, as parábolas que Jesus contou sobre o amor que Deus tem para com as pessoas dos tempos do Novo Testamento sempre ainda são muito bonitas. Lembram daquela da “ovelha perdida” de Mateus 18.10-14? Também tem aquela da “dracma, da moeda perdida” em Mateus 15.8-10. Noutro momento Ele contou da alegria, do júbilo que acontece no céu quando uma pecadora ou um pecador se arrepende para então retornar à família de Deus em Lucas 15.7.

Para mim, uma das histórias mais bonitas que Ele contou é, com certeza, aquela do “filho pródigo” que retornou quietinho para casa do pai, depois de ter passado toda sua herança nos “trocos” (Lucas 15.11-32). É emocionante o relato sobre o pai “afogado” em saudades e que, por isso mesmo, abraça o seu garoto quando do retorno à casa. Esta parábola retrata o amor de Deus para consoco. Ela também aponta para a gigantesca saudade que Deus tem das pessoas, das obras primas dos seus dedos. Deus está simplesmente enlouquecido de amor por nós. Ele quer estar junto conosco e sonha com a possibilidade de que também nós tenhamos sentimentos tais como os Dele.

Claro que Jesus não era um filho perdido. Os evangelistas deixam transparecer que Ele nunca se esqueceu do amor do Seu Pai; que Ele, sempre de novo, nas horas mais difíceis de Sua vida, procurava falar com Seu Pai por meio da oração. Todas as pessoas que conviveram com Jesus percebiam o amor, a saudade que Ele tinha do Seu Pai. Sua ascenção, sua volta ao Pai foi, com certeza, um felicíssimo Dia dos Pais.

Pois eu também desejo esta profunda saudade de Deus, este grande anseio de se estar na casa do Pai onde há tantas moradas preparadas para nós (João 14.2). Com e por causa de Jesus, já agora, nós também podemos chamar a Deus de "Abba", de “querido paizinho”. (Romanos 8.15). Paulo, numa de suas cartas, escreveu que Deus é “a origem de cada paternalidade no céu e na terra”. Ora, isso isso significa que Deus é um exemplo de Pai (ou um exemplo de mãe se alguém aqui tem problema com a figura do pai). O amor de Deus nosso Pai é para todas as pessoas; para todas as suas filhas e para todos os seus filhos, sem qualquer restrição. Por isso tudo, feliz Dia dos Pais. Que tal permitirmo-nos abraçar como se fôssemos pequenos “deuses de um Deus maior”? (Título da música cantada pelo coral da UFSC, sob a regência do maestro Acácio Santana).

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Vaidade de vaidades!



No domingo 5 de agosto refletimos em nossos cultos sobre o tema VAIDADE. O autor de Eclesiastes nos ajuda a pensar sobre este tema duro, mas necessário para nossa vida. Acompanhemos esta reflexão. (P.Rolf Rieck)


Ec 1.2 Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.

Ec 1.12 ¶ Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém. 13 Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir. 14 Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento.

Ec 2.18 Também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim. 19 E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade. 20 Então, me empenhei por que o coração se desesperasse de todo trabalho com que me afadigara debaixo do sol. 21 Porque há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, ciência e destreza; contudo, deixará o seu ganho como porção a quem por ele não se esforçou; também isto é vaidade e grande mal. 22 Pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? 23 Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade.

Quero lhes falar de um irmão em Cristo que marcou a vida de nossa família e marcou a vida de muitas outras pessoas. Emílio Sueira é seu nome. Filho de portugueses, nascido no interior de Minas Gerais. Casado com Guilhermina tiveram só uma filha. Como é natural entre os mineiros, Emílio foi trabalhar na estrada de ferro. Afinal, “trem bão” tem só em Minas, uai. Um problema muito sério em sua vida o levou a conhecer a vida nova em Jesus, na Igreja Presbiteriana. Vieram morar em Nova Friburgo e lá se viram aceitos como eram pela Igreja Evangélica Luterana. Seu testemunho de vida e fé tornou-se tão consistente que pessoas de muitas denominações cristãs aprenderam com eles a viver uma vida nova. Viviam num bairro simples, em casa simples e com móveis modestos. Alugavam alguns cômodos nos fundos do pátio para poderem ter um dinheirinho a mais. Cuidavam da dona Joana, a quase centenária mãe de Guilhermina. Joana, no alto dos esquecimentos que a vida estava lhe impondo, chamava sua filha de “mãe” e vivia a cantar velhos hinos evangélicos. Juntavam 3 ou 4 salários mínimos ao mês para todas as suas despesas. Davam fielmente seu dízimo à igreja. Às vezes esse dízimo era um pouco maior. Isso dependia de quantos guarda-chuvas e quantas panelas velhas o Emílio conseguia consertar até o final do mês. Ou ainda quanto aipim conseguia colher no terreninho que plantava perto de sua casa. Aos 83 anos ele e Guilhermina fizeram o Reencontro. Pareciam recém-casados subindo e descendo as ladeiras do hotel. Lamentou não ter feito o encontro uns 50 anos antes, dizendo que com isso sua vida matrimonial seria muito, muito diferente. Emílio e Guilhermina eram referência para a Comunidade Cristã. Ele dirigia estudos bíblicos e aprendeu a ilustrar seus estudos com desenhos que fazia, ou em casa na cartolina, ou no quadro branco da Igreja. Seu lema era: “Pastor Rica (dizer meu nome era muito complicado), Pastor Rica, estou aqui para ombrear com o pastor.” Encostava seu ombro no meu e era sincero no que dizia.

Por que conto esta história? Alguns dias antes de falecer, mostrou-me seu mais recente desenho – sempre em traços toscos que não lhe renderiam nenhum centavo caso quisesse vender – e nele desenhou toda sua vida. Não esqueceu de nenhum detalhe, entre os alegres e os tristes. Num determinado ponto da linha de sua vida colou a logomarca da igreja evangélica luterana, testemunhando de sua alegria de servir. Depois dos 80 anos desenhou a linha da vida descendo. Lhe perguntei se não seria melhor ter desenhado esta linha ascendente. Disse que não. A vida era assim. No final ela desce, mas lá em cima desenhou Jesus de braços abertos. “Minha vida vai indo para o buraco, mas meu Senhor me aguarda de braços abertos”. E hoje, lá esta ele, nos braços do seu amado Senhor Jesus Cristo.

O resto é vaidade. “Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade”.

Este homem pobre, este casal humilde, acrescentou riqueza à nossa vida. Acrescentou sinais de dignidade à vida de muita gente. Seguramente não trabalharam para enriquecer outros. Não foram escravos do dinhero. Não foram escravos do luxo e da ambição. Legaram seu melhor bem a todas as pessoas que frequentavam sua casa – o amor de Jesus.

O pregador e escritor do livro de Eclesiastes detectou claramente qual é o problema da vida moderna. A vaidade. A vaidade separa as pessoas. A vaidade afasta. A vaidade classifica e desclassifica as pessoas. Pobres precisam ser escravos a serviço dos ricos. São horas a fio de trabalho extra para que outros possam ter horas a fio de luxúria, gastança, ostentação... São horas pedalando a bicicleta ou em pontos de ônibus para que outros possam passear e fazer “pegas” em carrões beberrões. Esta é a indignação que o livro eclesiástico coloca para fora. Em nenhum momento o texto diz que isto é pecado, que isto é injusto... Simplesmente reflete sua indignação por causa da vaidade.

O Emilio Sueira também tinha suas vaidades. Sem querer parecer piegas, devo dizer que sua vaidade era estar servindo na Igreja. Ele e sua esposa que sofria com suas artroses. Para quem trabalhamos? Por que trabalhos? Vaidades fazem parte de nossos projetos. Não nos declaramos contra as vaidades mas, de que forma elas podem nos conduzir a servir e trabalhar por objetivos eternos?

Jesus ensina: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. (João 6:27)

O apóstolo também faz coro com as palavras eclesiásticas: 3 A minha defesa perante os que me interpelam é esta: 4 não temos nós o direito de comer e beber? 5 E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? 6 Ou somente eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar? 7 (...) Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? 8 Porventura, falo isto como homem ou não o diz também a lei? (1 Co 9)

Escrever mais seria, agora, vaidade. Deixar Jesus falar é sabedoria: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância.”

Encontros com Deus


Abaixo, transcrevo a última prédica que proferi na nossa Paróquia, por ocasião do 8° Domingo após Pentecostes, no dia 22 de julho de 2007. (P. Renato Luiz Becker)

A nossa vida vai tomando rumo a partir dos encontros e desencontros que temos com Deus. Na liturgia pudemos ler e ouvir o relato do encontro da Marta e da Maria com Jesus. Agora, em Gênesis 18.1-15, vou ler a respeito do encontro que Abraão e Sara tiveram com o Criador...

18.1 - Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. 18.2 - Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, prostrou-se em terra 18.3 - e disse: Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo; 18.4 - traga-se um pouco de água, lavai os pés e repousai debaixo desta árvore; 18.5 - trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, visto que chegastes até vosso servo; depois, seguireis avante. Responderam: Faze como disseste. 18.6 - Apressou-se, pois, Abraão para a tenda de Sara e lhe disse: Amassa depressa três medidas de flor de farinha e faze pão assado ao borralho. 18.7 - Abraão, por sua vez, correu ao gado, tomou um novilho, tenro e bom, e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo. 18.8 - Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles; e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram. 18.9 - Então, lhe perguntaram: Sara, tua mulher, onde está? Ele respondeu: Está aí na tenda. 18.10 - Disse um deles: Certamente voltarei a ti, daqui a um ano; e Sara, tua mulher, dará à luz um filho. Sara o estava escutando, à porta da tenda, atrás dele. 18.11 - Abraão e Sara eram já velhos, avançados em idade; e a Sara já lhe havia cessado o costume das mulheres. 18.12 - Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo consigo mesma: Depois de velha, e velho também o meu senhor, terei ainda prazer? 18.13 - Disse o SENHOR a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Será verdade que darei ainda à luz, sendo velha? 18.14 - Acaso, para o SENHOR há coisa demasiadamente difícil? Daqui a um ano, neste mesmo tempo, voltarei a ti, e Sara terá um filho. 18.15 - Então, Sara, receosa, o negou, dizendo: Não me ri. Ele, porém, disse: Não é assim, é certo que riste.

QUATRO TIPOS

Os textos que lemos apresentam-nos, em dois momentos, quatro pessoas parecidíssimas. No primeiro, Deus se faz presente no diálogo dos três homens que visitam Abraão. O Pai da Fé hospeda e serve àqueles que o visitam da melhor forma possível. Já a sua esposa Sara, fica ouvindo detrás da porta com sorriso debochado no rosto. No segundo vemos Jesus, o Filho de Deus, dialogando com as conhecidíssimas Marta e Maria. Marta dá muito de si praticando a hospitalidade, enquanto que sua irmã Maria só consegue prestar atenção.

Os dois momentos são marcados pelo acolhimento que as quatro pessoas dão a Deus. Assim, a Bíblia nos coloca diante de quatro possibilidades de se praticar a fé cristã. Abraão é o crente convicto. A sua fé está encarnada no seu corpo. É por causa desta fé que ele será conhecido como um bom exemplo a ser seguido pelas futuras gerações.

Sara é aquela mulher que observa a fé do seu marido meio escondida, detrás da porta. É uma mulher experimentada, prática. Existe alguma coisa entre a fé que seu marido professa e ela, uma coisa que ela não sabe explicar direito. Ela acha graça da possibilidade de uma pessoa avançada em dias ainda poder gerar uma criança. Para ela Abraão é um sujeito primitivo que consegue ver e sonhar com fatos que, cientificamente, são impossíveis de acontecer. E assim ela vai deixando a vida lhe levar.

A dona Marta é uma mulher de fé, uma senhora que tem sua casa aberta para o seu Senhor. Para ela a fé precisa impulsionar as pessoas naturalmente ao trabalho. Ela quer fazer passar esse seu jeito de ser e de crer para as pessoas que lhe estão próximas. Ela encara as outras pessoas cristãs e pensa, sinceramente, que elas nunca serão completas se não agirem como ela age no dia-a-dia.

Já a jovem Maria escolheu – conforme as palavras do próprio Jesus - a melhor parte. Maria tem inseguranças pulsando dentro do peito. Ela precisa encontrar bons alicerces para, finalmente, edificar sua fé que é fraca. Ela quer se encontrar interiormente como pessoa e, para tal, não quer saber de regras e nem tampouco de éticas de comportamento e ou de engajamento. Ela busca esse intento com seu jeito simples de ser, enquanto se aproxima de Jesus. É dessa forma que ela consegue encontrar um sentido para a sua vida.

Dá para dizer-se que Marta e Abraão, Sara e Maria são muito parecidos entre si. Abraão como Marta engajam-se, dão de si no trabalho e procuram fazer o melhor que podem para os seus hóspedes. Já Sara e Maria (de quem não se ouve absolutamente mais nada a não ser aquilo que Jesus falou dela no texto) só escutam. Há uma enorme diferença no ato de ouvir de cada uma destas duas mulheres.

Deus abre um diálogo com Sara quando Lhe pergunta sobre o seu riso. Ela responde mentindo: - “Eu nao ri!” – “Sim! Você riu”! – reage Deus. O ouvir de Sara é um ouvir sem muita seriedade. Ela não ouve Deus como se sua vida fosse depender daquela audição. Biblicamente falando daria para se dizer que este jeito de ouvir tem a ver com a nossa carne, tem a ver com aquilo que é caido em nós. E é justamente este jeito de ser que muitas vezes apresentamos, que se coloca entre o nosso ouvido e a voz de Deus, quando Ele fala conosco.

Maria, ao contrário de Sara, ouve tudo, absorve o que Jesus fala. Jesus a elogia por causa deste seu jeito de ser. Maria age assim porque precisa da Palavra de Deus para começar a viver. Maria é mais jovem do que Sara. Ela ouve Deus diferente do que a Sara O ouve. Ela é curiosa e aberta para a novidade. Ela é cheia de admiração pelo Mestre e vai ao seu encontro sem qualquer reserva, sem pôr um dos pés para trás.
Abraão e Marta também têm diferenças. Abraão pertence ao time dos antigos baluartes da fé que até construiam altares para Deus. Marta já pertence a uma geração bem mais nova de pessoas. Ela adora a Deus em espírito e em verdade. Abraão chega a negociar com Deus para que o julgamento não aconteca naqueles dias. Deus o leva a sério e o tal julgamento tem seu começo quando Jesus assume todas as culpas sobre Si e, com a cruz, traz nova possibilidade de vida como presente.

CONCLUSÃO

A tradição sempre identificou Maria com a pecadora, com a prostituta de João 8. Não creio nisso. Creio, isto sim, que esta tradição queira exprimir que só a pessoa que conhece a sua própria fraqueza e que não esconde a sua culpa é que pode se chegar mais perto de Deus. Os sadios nunca precisam precisam de médico, só os doentes. Só poderemos nos aproximar de Deus se estivermos de mãos vazias. Tudo aquilo que carregamos nas nossas mãos que não seja Deus, coloca-se, potencialmente, entre nós e Deus que, a toda hora, quer se fazer de hóspede na nossa vida.