
Gente querida!
A maioria de nós aqui presentes, vê bem. Não somos capazes de imaginar o que se passa na cabeça de uma pessoa cega, desde nascença. Muitos de nós têm enorme dificuldade de ler o jornal, se não estivermos assessorados com óculos. Em Marcos 8.22-26 se lê a história de um sujeito que era cego... 8.22 - Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse. 8.23 - Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa? 8.24 - Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando. 8.25 - Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito. 8.26 - E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia...
A CURA DO CEGO
Sabemos pouco sobre este homem cego. Desconhecemos seu nome e não nos é dito porquê ele era cego. Teria sido um acidente? Sua cegueira era de nascença? Ou será que o mundo foi tão duro com ele a ponto dele somente querer permanecer de olhos fechados?
A Bíblia diz que Jesus se envolveu com o tal cego. Que o levou a sério, no momento em que o conduziu para fora da aldeia, para longe dos curiosos. Agindo assim, Jesus propiciou-lhe confiança. Jesus põe suas mãos nele e umedece seus olhos com saliva. Ela significa aquilo que de mais íntimo Jesus tem para repartir. E Ele reparte isso com o cego. Num primeiro momento o cego só consegue ver sombras. As pessoas lhe parecem ser como árvores que andam. Ele precisará dar mais alguns passos para poder ver perfeitamente como nós vemos. Áqui, a cura que Jesus faz é gradual, tem dois momentos.
O fato é que o PDs está curado. Por causa de Jesus, muita coisa mudou na vida daquele homem. Não temos informação de de como a vida daquele sujeito se desenvolveu pós-cura. Um detalhe, no entanto, está claro: Jesus abriu os seus olhos e ele pode ver, pode conviver com as belezas e com as tristezas que o mundo carrega em si.
A palavra chave deste texto me facina: Ele ficou restabelecido. Não foram só os seus olhos que experimentaram a cura. Toda a sua vida passou a ter um outro sentido. Quer dizer, ele se converteu num cidadão com um novo alvo a ser alcançado. Agora ele podia lutar melhor para realizar os seus sonhos. Quero sublinhar este aspecto: a cura proporcionada por Jesus não se restringiu somente em torno da sua boa visão.
Penso que o cego do nosso texto não ficou de rosto caído, não precisou mais olhar para longe, quando em contato com os detalhes ruins que continuaram a acontecer à sua volta. Junto à boa visão ele pode ver, ouvir, pensar e sentir. Esse equilíbrio é importante para que a que qualquer pessoa possa ter uma boa relação com o mundo que a cerca; para que ela não venha a sucumbir por causa das tristezas que grassam dentro do seu peito.
Agora vou puxar esta história para os dias de hoje. Jesus também nos quer tomar pela mão e, depois, abrir os nossos olhos; endireitar os nossos caminhos. Mesmo vendo bem, muitas vezes, podemos nos encontrar cegos. Dou três exemplos:
1. Uma mulher está cega de ciúmes. Ela só mede a sua vida pela vida dos outros. As pessoas de suas relações se apresentam melhor, elas têm um manequim mais bonito, a casa delas é maior em m², elas possuem um melhor emprego e têm mais dinheiro. Uma tal crise leva esta mulher a fazer dieta. Ela se esforça e fica magrinha como uma destas modelos de revista. Ela não tira os olhos do seu cônjuge, porque tem medo de perdê-lo para outra mulher mais bonita, mais rica, mais jovem. Ela está cega. Ela não vê as suas capacidades, não vê a sua própria beleza e nem tampouco o amor que os outros lhe doam. Ela tem um complexo de inferioridade e quase nunca consegue levantar os seus olhos para olhar o mundo como ele de fato é.
Como poderão ser abertos os seus olhos? Como ela poderá ser restabelecida? Talvez, através de uma criança que não pergunta por poder, dinheiro e beleza... Uma criança que só necessite de alguém que esteja ao seu lado e brinque, que ria e que a carregue em seus braços, que lhe faça carinho. A confiança de uma criança é algo que faz com que a gente se sinta a pessoa mais importante do mundo. Só quem experimenta uma coisa assim, pode ser carregado com amor e confiança, pode viver de novo com os seus olhos abertos.
2. Um jovem está cego de raiva e ódio. Ele bate em pessoas indefesas nas paradas de ônibus. Ele se droga nas esquinas e assalta à mão armada. Ele não têm perspectiva de um emprego porque não teve acesso à educação. Sua vida está tomada de um vazio enorme e, por estas e outras, agride como pode. Em grupo, este jovem sente-se mais forte. Seus olhos nunca foram abertos para as boas qualidades que têm em si, nem tampouco para os limites que deve observar. Na maioria das vezes foi esquecido e isso gera ódio. Como não vê futuro para si, toma o futuro dos outros.
Jesus também quer abrir os olhos desse moço, quer restabelecê-lo. Talvez isso vá acontecer a partir de uma ONG e ou de mulheres e homens comprometidos com a justiça; de gentes que fazem um trabalho engajado no Governo e ou de pessoas que se especializaram na área da juventude e que, por isso mesmo, entendem das frustrações que a juventude sente; de pessoas que tenham a capacidade de indicar e de ajudar a trilhar novos caminhos; de indivíduos que lhe abram perspectivas; de lideranças que desmontem conflitos com boas palavras e boas idéias.
3. Um casal está cego de amor. Ele diz "Só queremos o teu bem", quando se dirige ao seu adolescente com o objetivo de criticar seus amigos, a escolha da sua profissão, a maneira como educa os seus netos. Muitas e muitas vezes, relações afogadas em amor acabam terminando em rupturas familiares. Os nossos filhos precisam ter a chance de fazer os seus próprios erros para, então, poderem se alegrar com as suas vitórias e conquistas.
Pais cegos de amor não compreendem que precisam largar os seus filhos. Porquê não conseguem se libertar do papel de pais, eles também não permitem que os seus filhos se afastem deles – e tudo isto por causa do medo de ficarem sós. Agindo assim, acabam não tendo mais olhos para a vida que acontece ao redor, para as próprias tarefas, para as pessoas que estão próximas e que carecem da ajuda de fato.
Jesus quer abrir os olhos dos pais e, junto, restabelecê-los e isso, através do trabalho que a Igreja promove aqui na São Mateus. Há tantas pessoas que precisam de calor e de amor. Entre nós, há pessoas que carecem das experiências vividas e compartilhadas. Se estes pais derem de si fayendo isso, poderão contar novas histórias para os seus filhos e, junto, ficar orgulhosos que são úteis para a sociedade.
CONCLUSÃO
Cego de ciúmes, de ódio e de amor – três exemplos de pessoas que vêem mas não vêem. Três motivos indicadores de que precisamos de alguém que nos tome pela mão, que nos abra os olhos e aponte para as perspectivas no horizonte. Recém-nascidos enxergam tudo nebuloso. Ja pessoas adultas vêem bem a beleza e as dificuldades que o mundo tem. Num primeiro momento, alegremo-nos. Num segundo choremos e, depois, combatamos as dificuldades com o exercício dos nossos dons. Se a capacidade de alegrar-se e indignar-se estiverem no mesmo nível, então estamos em ordem conosco mesmos, tal como o cego do texto de Marcos. Agora, vivamos com os olhos abertos.
"Os olhos do espírito começam a ver bem, quando o corpo dá sinais de perder a força” escreveu Platão. Esforcemo-nos, já agora, para percebermos as coisas que nos rodeiam com os olhos do Espírito, com com o olhar da Fé. Amém!



