No domingo 5 de agosto refletimos em nossos cultos sobre o tema VAIDADE. O autor de Eclesiastes nos ajuda a pensar sobre este tema duro, mas necessário para nossa vida. Acompanhemos esta reflexão. (P.Rolf Rieck)
Ec 1.2 Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
Ec 1.12 ¶ Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém. 13 Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir. 14 Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento.
Ec 2.18 Também aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do sol, visto que o seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim. 19 E quem pode dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o ganho das minhas fadigas e sabedoria debaixo do sol; também isto é vaidade. 20 Então, me empenhei por que o coração se desesperasse de todo trabalho com que me afadigara debaixo do sol. 21 Porque há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, ciência e destreza; contudo, deixará o seu ganho como porção a quem por ele não se esforçou; também isto é vaidade e grande mal. 22 Pois que tem o homem de todo o seu trabalho e da fadiga do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol? 23 Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade.
Quero lhes falar de um irmão em Cristo que marcou a vida de nossa família e marcou a vida de muitas outras pessoas. Emílio Sueira é seu nome. Filho de portugueses, nascido no interior de Minas Gerais. Casado com Guilhermina tiveram só uma filha. Como é natural entre os mineiros, Emílio foi trabalhar na estrada de ferro. Afinal, “trem bão” tem só em Minas, uai. Um problema muito sério em sua vida o levou a conhecer a vida nova em Jesus, na Igreja Presbiteriana. Vieram morar em Nova Friburgo e lá se viram aceitos como eram pela Igreja Evangélica Luterana. Seu testemunho de vida e fé tornou-se tão consistente que pessoas de muitas denominações cristãs aprenderam com eles a viver uma vida nova. Viviam num bairro simples, em casa simples e com móveis modestos. Alugavam alguns cômodos nos fundos do pátio para poderem ter um dinheirinho a mais. Cuidavam da dona Joana, a quase centenária mãe de Guilhermina. Joana, no alto dos esquecimentos que a vida estava lhe impondo, chamava sua filha de “mãe” e vivia a cantar velhos hinos evangélicos. Juntavam 3 ou 4 salários mínimos ao mês para todas as suas despesas. Davam fielmente seu dízimo à igreja. Às vezes esse dízimo era um pouco maior. Isso dependia de quantos guarda-chuvas e quantas panelas velhas o Emílio conseguia consertar até o final do mês. Ou ainda quanto aipim conseguia colher no terreninho que plantava perto de sua casa. Aos 83 anos ele e Guilhermina fizeram o Reencontro. Pareciam recém-casados subindo e descendo as ladeiras do hotel. Lamentou não ter feito o encontro uns 50 anos antes, dizendo que com isso sua vida matrimonial seria muito, muito diferente. Emílio e Guilhermina eram referência para a Comunidade Cristã. Ele dirigia estudos bíblicos e aprendeu a ilustrar seus estudos com desenhos que fazia, ou em casa na cartolina, ou no quadro branco da Igreja. Seu lema era: “Pastor Rica (dizer meu nome era muito complicado), Pastor Rica, estou aqui para ombrear com o pastor.” Encostava seu ombro no meu e era sincero no que dizia.
Por que conto esta história? Alguns dias antes de falecer, mostrou-me seu mais recente desenho – sempre em traços toscos que não lhe renderiam nenhum centavo caso quisesse vender – e nele desenhou toda sua vida. Não esqueceu de nenhum detalhe, entre os alegres e os tristes. Num determinado ponto da linha de sua vida colou a logomarca da igreja evangélica luterana, testemunhando de sua alegria de servir. Depois dos 80 anos desenhou a linha da vida descendo. Lhe perguntei se não seria melhor ter desenhado esta linha ascendente. Disse que não. A vida era assim. No final ela desce, mas lá em cima desenhou Jesus de braços abertos. “Minha vida vai indo para o buraco, mas meu Senhor me aguarda de braços abertos”. E hoje, lá esta ele, nos braços do seu amado Senhor Jesus Cristo.
O resto é vaidade. “Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade”.
Este homem pobre, este casal humilde, acrescentou riqueza à nossa vida. Acrescentou sinais de dignidade à vida de muita gente. Seguramente não trabalharam para enriquecer outros. Não foram escravos do dinhero. Não foram escravos do luxo e da ambição. Legaram seu melhor bem a todas as pessoas que frequentavam sua casa – o amor de Jesus.
O pregador e escritor do livro de Eclesiastes detectou claramente qual é o problema da vida moderna. A vaidade. A vaidade separa as pessoas. A vaidade afasta. A vaidade classifica e desclassifica as pessoas. Pobres precisam ser escravos a serviço dos ricos. São horas a fio de trabalho extra para que outros possam ter horas a fio de luxúria, gastança, ostentação... São horas pedalando a bicicleta ou em pontos de ônibus para que outros possam passear e fazer “pegas” em carrões beberrões. Esta é a indignação que o livro eclesiástico coloca para fora. Em nenhum momento o texto diz que isto é pecado, que isto é injusto... Simplesmente reflete sua indignação por causa da vaidade.
O Emilio Sueira também tinha suas vaidades. Sem querer parecer piegas, devo dizer que sua vaidade era estar servindo na Igreja. Ele e sua esposa que sofria com suas artroses. Para quem trabalhamos? Por que trabalhos? Vaidades fazem parte de nossos projetos. Não nos declaramos contra as vaidades mas, de que forma elas podem nos conduzir a servir e trabalhar por objetivos eternos?
Jesus ensina: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. (João 6:27)
O apóstolo também faz coro com as palavras eclesiásticas: 3 A minha defesa perante os que me interpelam é esta: 4 não temos nós o direito de comer e beber? 5 E também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? 6 Ou somente eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar? 7 (...) Quem planta a vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? 8 Porventura, falo isto como homem ou não o diz também a lei? (1 Co 9)
Escrever mais seria, agora, vaidade. Deixar Jesus falar é sabedoria: “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância.”
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