
Caminhamos e conversamos
Fazer uma caminhada com outras pessoas é uma atividade muito especial. Já nem lembro a última vez que pude fazer isso. Dá para conversar, dá para chutar pedrinhas, dá para observar pássaros, insetos e plantas, dá para brincar, correr, subir, descer. E dá também para conversar. Como dá para conversar!
São conversas produtivas. Podem ser superficiais, mas também podem ser profundas. Muitas pessoas gostam de caminhar com fones nos ouvidos. E dá-lhe música alta! Conversas produtivas, calmas conversas produtivas estão em extinção. E assim caminhamos.
Um Jesus distante
Nós vivemos num tempo pós-cristão. Pelo menos no sentido de que ninguém mais espera pela volta de Cristo. A nossa geração está na mesma situação na qual se encontravam os discípulos no caminho de Emaús. É de lamentar a forma como caminhavam aqueles discípulos, conversando sobre aquele que poderia ser o Cristo, o Messias, mas não foi.
Perguntamos: Por que nós deveríamos colocar nossa confiança em uma pessoa que viveu a tanto tempo, que tem uma história interessante, até emocionante, mas que está tão distante dos nossos problemas modernos? Toda essa confiança que foi depositada neste homem certamente teve uma razão de ser naquele tempo. Mas hoje? Hoje é tudo tão diferente. Nós não esperamos em um Messias que, sozinho, resolva todos os problemas do mundo, que são tantos. A humanidade hoje simplesmente não está no ponto de crer em uma só pessoa para resolver os problemas sociais e pessoais ao mesmo tempo.
Mesmo assim esse tal de Jesus se coloca a caminhar junto aos discípulos no caminho de Emaús. E não o faz como o Messias. É simplesmente um estranho que caminha junto. É um estranho que compartilha as perguntas e a dor dos desamparados. É um ser humano que caminha com outros seres humanos. Como ser humano que conhece o coração dos seres humanos, ele pode se apresentar como o Messias do qual falam as escrituras.
Muitas passagens dos evangelhos nos falam desse homem que entra na vida das pessoas nas situações mais diversas de dificuldades, angústias e medos. Ele nem diz muita coisa, e se apresenta como um próximo amoroso. E é, então, reconhecido como um Senhor e Mestre bondoso.
Para exemplificar, podemos lembrar daquele homem que lavou os pés de seus discípulos que o chamavam de senhor e Mestre. Através deste gesto esse homem mostrou como age o Senhor e o Mestre. Age como quem serve.
Este é o sentido da encarnação de Deus, que a divindade passe pela porta do estábulo e nasce em meio ao estrume, como o mais comum dos humanos que, de tão miserável, se torna incomum e compartilha as necessidades mais básicas com os que lhe são próximos.
Somente através de um homem comum, nascido de pai e mãe, a humanidade pode conhecer a Deus.
Um Jesus próximo
O mais impressionante no relato do caminho de Emaús é, quem sabe, aquilo que acontece antes de Jesus ser reconhecido como o Mestre. Quando uma pessoa está metida no mais profundo conflito ou problema, Jesus já está ao seu lado. Quantas pessoas entre nós já não testemunharam esta proximidade de Jesus? Elas podem recordar de inúmeros episódios onde, mais tarde, reconhecem a presença do Messias.
Pode parecer que pessoas tenham sido totalmente esquecidas; pode parecer que nós mesmos não temos mais nenhuma esperança para solucionar nossas crises; pode parecer que Cristo se distanciou de nós; pode parecer que com o tamanho da nossa tristeza ele já nem exista mais mesmo; pode parecer que Cristo, aquilo que ele disse e a Palavra de Deus tenham se tornado para mim algo morto e sem sentido; pode parecer que não há mais nenhuma esperança para mim. Tudo pode parecer assim – mas na realidade Jesus já há muito tempo está comigo, andando o comigo e caminho que preciso seguir.
Jesus, em sua presença tão próxima, abre os olhos daqueles que andam com ele. Primeiro faz reconhecer o plano salvífico de Deus. Os interlocutores perceberam que a morte na cruz era necessária para lhes trazer esperança de vida. Afinal, sem morte não há ressurreição. Segundo, quando reconhecem a voz de seu Mestre e quando com eles parte o pão – o coração de cada um deles ardeu de forma surpreendente.
Deus não nos deixa sozinhos em nossas dificuldades, dúvidas, desconfianças e falta de fé. Ele se ocupa conosco. Deus se revela a nós justamente ali e quando não o reconhecemos.
No tempo pós-cristão Jesus Cristo continua andando ao nosso lado. Já o reconhecemos?
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