quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Temos chances de sermos percebidos neste mundo?



Temos chances de sermos percebidos neste mundo?

Esta prédica compartilhei no domingo em meio aos acontecimentos olímpicos. Penso que eles ilustram bem a busca por reconhecimento de pessoas. Quais são as nossas chances? Reflita você também sobre isso. Rolf

É quase inevitável que falemos em olimpíadas. Afinal, são as notícias olímpicas que desbancam as outras notícias que dão conta das manobras de poderosos, como a opressão do governo russo sobre o povo da Geórgia. As notícias olímpicas tiram o foco das eleições no Brasil, onde muita gente boa deixa de ser valorizada na sua candidatura a vereador e prefeito enquanto que bandidos corruptos fazem campanha fora dos padrões admitidos em uma realidade democrática. Mas, vamos lá, gente olímpica. O que faz um ou uma atleta ter o reconhecimento internacional? A atleta grega, que corre 400m com barreiras, mesmo tendo sido submetida a 29 exames antidoping nos últimos dois anos, foi flagrada com substâncias proibidas. Mereceu a medalha de ouro nas olimpíadas passadas, em Atenas? Cielo, o medalhista de ouro brasileiro na natação, disse que chegou lá por causa da sua raiva. Teria brigado muito com seu técnico nesse ano em que tudo estava dando errado. Acabou que deu certo. Outro nadador, Michael Phelps, termina sua participação em Beijing com um grande peso nos ombros: carregar oito medalhas de ouro. Uma delas foi conseguida porque simplesmente foi mais rápido e determinado em tocar o sensor de fim de prova na borda da piscina. O que faz alguém ser reconhecido neste mundo tão competitivo? Correr. O homem mais rápido do mundo deixa 100m para trás em 9s69 e ainda tira onda de seus adversários durante a corrida. Usain Bolt é o nome do jamaicano.

Ah, e nós pobres mortais? Quem poderia nos reconhecer? Que chances temos nós de, pelo menos, não ficar nos últimos lugares em nossa vida? Quem tem olhos para a nossa realidade? Se não estivermos no topo, temos chance de valorização?


Mateus 15.21 Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom. 22 E eis que uma mulher cananéia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. 23 Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós. 24 Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. 25 Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! 26 Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. 27 Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. 28 Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.


Não poucas vezes Jesus entrou em controvérsia com pessoas que o seguiam. Os populares fariseus muitas vezes foram confrontados por Jesus em suas incoerências teológicas. Os publicanos, nada populares, igualmente tiveram que ser colocados em seus devidos lugares com a admoestação de Jesus Cristo. E agora esta mulher, sem nome, provinda de uma região pagã, parece chatear Jesus com sua insistência para que curasse sua filha possuída pelos poderes demoníacos. Se, por um lado, de acordo com o Novo Testamento, “Cristo é o fim da lei” (Rm 10.4), por outro vemos que Jesus é a radicalização da lei. Jesus se coloca radicalmente contra a lei do templo quando, por exemplo, vocifera: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!” (Mateus 23.23-26)

Jesus ignora a mulher que quer ser percebida. Ela precisa ser percebida porque tem um pedido especial e importante a fazer. Os discípulos, como quem filtra o acesso de pessoas ao importante Jesus, também intercedem: Manda essa mulher chata e barulhenta embora. Já não aguentamos mais seus berros. Nem isso Jesus queria fazer, argumentando que gente como essa mulher não é alvo de sua missão. O que fazer para ser percebido.

Embora o contexto que o evangelista Mateus escolheu para inserir este episódio seja a discussão sobre a aplicabilidade da lei de Moisés nos termos que escribas e fariseus o estavam fazendo, é de se estranhar o que segue. Aparentemente o próprio mestre Jesus precisou mudar seu infalível ponto de vista diante da argumentação da mulher. Esta mulher sem nome e sem procedência definida questiona “a postura rígida da lei, faz valer a profecia de Isaías, de um Deus que se alegra com os estrangeiros que se aproximam para o servir”, como vimos na leitura de texto de Isaías 56. A mulher “crê no poder desse homem e o enfrenta”.

O reconhecimento que buscamos para nossa existência vem por mérito ou por graça? Deveríamos ser atletas olímpicos para merecermos um lugar no olimpo das divindades? Conforme Stott, a resposta cristã a estas perguntas consiste em dirigir a atenção de quem questiona a Deus mesmo. É afirmar que Deus tomou a iniciativa de fazer pelo ser humano o que o ser humano não pode fazer por si mesmo. Mesmo no ministério de Jesus, é necessário aque fique claro que a valorização de uma pessoa somente é possível porque Deus toma a iniciativa. Esta iniciativa de Deus em favor da humanidade recebe o nome de graça. “Graça é o amor de Deus para quem não o merece. Graça é o amor que se preocupa, se humilha e resgata”.

Não me furtaria em dizer que Jesus foi, sim, humilhado pela argumentação de fé desta mulher insolente e intrusa. É assim que Jesus faz valer sua autoridade da graça, do resgate de vidas sem projeção para o lugar de destaque do pódium: o lugar da salvação.

Migalhas da graça de Deus. É delas que precisamos, assim como os cachorrinhos as esperam debaixo da mesa. Deus tomou essa iniciativa da graça ainda antes de Jesus. Começou a história da graça na eternidade e a desenvolveu com a história de Seu povo. A história da graça de Deus culminou na cruz de Cristo. Quem sabe também esta mulher sem nome tivesse estado debaixo da cruz chorando a morte do quem a ajudou. Migalhas da graça nos satisfazem ainda hoje, no presente. Deus atualiza o evento salvífico da cruz em nossa vida através da ação do Espírito Santo. Este mesmo Espírito acende a nossa fé para que tomemos posse daquilo que Deus fez por nós em Cristo. Migalhas da graça de Deus. É delas que precisamos para sobreviver, para ser alguém, para sermos ouvidos.

Misericórdia! Somos carentes da misericórdia de Deus. Dizendo melhor: somente teremos um lugar de destaque se aceitarmos a graça misericordiosa de Deus para nossa vida, se deixarmos de buscar méritos pelas obras próprias. Certamente o exemplo mais notável da troca de obras meritórias próprias pela graça inquestionável de Jesus é a vida do apóstolo Paulo. Todo seu zelo em perseguir cristãos sucumbiu diante da voz de Jesus.

É provável que hoje a situação, na maioria das vezes, seja invertida. Explico: não somos mais nós quem clamamos por Jesus, e sim Ele clama por nós. Quer que aceitemos o novo caminho, a nova vida, sentido para a vida. Vamos n’so também aceitar Sua graça amorosa antes que a nossa distância nos cause danos irreparáveis para a vida? “Deus nos deixou a promessa de que podemos receber o descanso de que ele falou”. (Hb 4.1 – lema da semana)

Amém!




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