quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A riqueza e seu bom uso


Hoje é um dia especial:
31 de outubro - Dia da Reforma Luterana
A prédica abaixo foi proferida no último domingo, e sua preocupação quando ao bom uso das riquezas condiz com a doutrina luterana a respeito. Lutero desenvolveu o conceito dos DOIS REINOS. Um é o reino espiritual e outro é o secular. A vivência harmônica e justa entre os dois reinos é requerido de toda pessoa cristã que queira ter um bom testemunho neste mundo. Esta é, sem dúvida a REDESCOBERTA DO EVANGELHO que a reforma nos proporciona. Um abraço a todos e todas. P. Rolf Rieck


A riqueza e seu bom uso

Em um País onde há uma minoria desproporcionalmente rica e uma maioria miseravelmente pobre, e onde as perspectivas de melhorar a situação de vida são como nuvens esparsas no horizonte, é difícil falar no bom uso que se pode fazer da riqueza.

Hoje queremos ressaltar que pode haver, sim, um bom uso da riqueza. Jesus ilustrou o mau e o bom uso da riqueza com a parábola do administrador astuto, aquele que falsificou as promissórias, baixando seu valores, para fazer amigos de última hora que poderiam lhe acolher caso perdesse o emprego.

É usado um mau exemplo para resgatar aquilo que é positivo, que é bom e desejável em relação às riquezas e posses.

Para que tenhamos um fio orientador em nossa reflexão, elegemos a expressão “não podeis servir a Deus e às riquezas” como base de argumentação e como ponto de chegada.

Leiamos o texto bíblico do Evangelho de Lucas:

16.9 E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos. 10 Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. 11 Se, pois, não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta, quem vos confiará a verdadeira riqueza? 12 Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso? 13 Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. 14 Os fariseus, que eram avarentos, ouviam tudo isto e o ridiculizavam.

Diz nosso texto que, logo de saída, esta expressão “não podeis servir a Deus e às riquezas” causou uma reação de zombaria entre os fariseus (sempre eles!). Esta expressão queremos segurar bem perto de nós para nortear nossa reflexão. Assim destacamos alguns grupos de pessoas que não se enquadram neste dito de Jesus. Senão, vejamos:

1. Os avarentos. As palavras aqui foram dirigidas aos discípulos, mas os fariseus vestiram a carapuça. Literalmente a palavra significa: “viravam seu focinho para cima” em sinal de desprezo aos ensinamentos de Jesus.

Você já presenciou algo assim? Não é desta forma, virando o focinho para cima, com o perdão da expressão, que agem pessoas que exploram o povo brasileiro? Enganando até naquele líquido branco vendido como leite por estas grandes empresas que projetam a imagem de produtoras de alimentos saudáveis? Não é assim que agem os políticos – todos corruptos – desdenhando a má sorte do populacho que sofre com os roubos e desvios de verbas? Não é esta a cara que vemos quando o governo diz que não pode governar sem a CPMF, que deveria ser integralmente usada na área da saúde, enquanto nossos hospitais usam furadeiras elétricas comuns para cirurgias complexas?

Bom, esta classe desclassificada de gente aparentemente não vai se importar com o que Jesus ensinou. Como hoje aqui estamos para nos deixar modelar pela palavra de Jesus, certamente nós vamos querer compreender o ensino para sermos abençoados pelo seu autor.

2. Infidelidade. A questão da fidelidade, a meu ver, será sempre uma questão de foro íntimo: ninguém melhor que eu mesmo, você mesma, para atestar se é uma pessoa fiel ou não. Por isso a boa aplicação de suas riquezas partirá dos valores com os quais você e eu, intimamente, aplicamos como orientadores de vida. Se Jesus diz “não podeis servir a Deus e às riquezas”, a sua fidelidade a este ou aquele já terá feito sua escolha.

Fidelidade tem a ver com fé e confiança. Ser fiel, no sentido que Jesus usa aqui a palavra (uma vez que está relacionada à Mamon, palavra de origem aramaica – idioma de Jesus – deduz-se que aqui a fidelidade está relacionada exclusivamente ao uso de dinheiro e bens), é o procedimento de pessoas que se mostram fiéis na transação de negócios, na execução de comandos, ou no desempenho de obrigações oficiais. Ou seja, pessoas que agem de acordo com suas convicções mais íntimas e enraizadas. Se sua vida está cheia de mentiras e enganos, não terão nenhum problema em agir assim no mundo dos negócios. Se, no entanto, tem uma vida cheia de temor ao Senhor, farão seus negócios baseados nos valores da justiça divina.

3. O muito e o pouco. Entre as pessoas que buscam agir com fidelidade aos princípios da justiça divina, sempre haverá aquelas que procurarão fazer pequenos desvios para compensar sua grande justeza. “Por que não desviar um pouquinho só, se todos fazem isto o tempo todo?”

Nos próximos capítulos do Ev. de Lucas encontraremos a parábola de Jesus – das dez minas. Lá é dito: Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades. Embora possa não parecer à primeira vista, a fidelidade e o cumprimento da justiça nas pequenas coisas, nos pequenos valores, sim, nos centavos, evoca a bênção de Deus colocando estas pessoas sobre muitos bens.

Ah, mas e a injustiça dos impostos? Quem não é fiel mesmo nestes valores injustos – “...não vos tornastes fiéis na aplicação das riquezas de origem injusta...” “Se não vos tornastes fiéis na aplicação do alheio, quem vos dará o que é vosso?” (v. 11, 12) – Deus não o colocará para administrar o muito.

A. Schlatter tinha razão: Nós precisamos fazer nosso exercício de fidelidade com nossa herança, com nossos bens, porque eles nos mostram que tudo o que temos é dádiva. Como tal, precisamos exercitar nossa confiança naquele que nos dá todas as coisas. Portanto “não podeis servir a Deus e às riquezas” significa colocar nossa confiança ou em Deus ou nas riquezas. É nas pequenas coisas que isto se tornará determinante.

Quem maneja com justiça e inteireza o Mamon, quem causa alegrias para Deus e para o próximo com seus procedimentos em relação a bens e dinheiro, também agirá da mesma forma com o bom dinheiro e com os bons bens. Estes são doação exclusiva de Deus.

4. Dois Senhores. Juridicamente um escravo poderia ter dois senhores. De direito, sim, mas de fato, não. Novamente olhando para o ponto da fidelidade (veja acima), é no foro íntimo que as coisas se decidirão: ou você amará a um dos senhores e odiará o outro, ou, terá mais atenção para com um e menos atenção para com outro. Por isso Jesus é categórico quando se refere à administração de bens e riquezas: “não podeis servir a Deus e às riquezas”.

O que está por destrás desta expressão “não podeis servir a dois senhores” não é necessariamente o ódio ou a paixão entre um e outro. A coisa é mais sutil. A palavra diz que ninguém pode sentar em dois lugares ao mesmo tempo.

Qual é a nossa escolha? Não podemos sentar em duas cadeiras. Certamente também não queremos ser contados entre as pessoas que levantam seu focinho (para lembrar a expressão original!) diante deste assunto.

5. Deus conhece nosso coração. No íntimo, o que determina a cadeira na qual estamos sentados, é o nosso coração. As pessoas podem enganar seus iguais, mas nunca a Deus. Nossa confiança em Deus e nossa dependência de Deus – ou nossa não confiança e nossa não dependência – se confirmará nos atos de nosso coração. Quanto dinheiro se gasta com laser e quanto se gasta em promover o Evangelho? Quanto se investe de criatividade e empenho para a missão da igreja e quanto se investe em achar meios de ficar mais rico?

A ânsia pela riqueza é como a água do mar: quanto mais se bebe dela, mais sede se tem. (Arthur Schopenhauer)

O bom uso da riqueza, portanto, acontece quando somos justos e fiéis para com aquele que nos dá todos os bens e todas as riquezas: Deus. Jesus, o Salvador, nos chama para um procedimento justo e santo em todas as áreas da vida. Também na área do nosso bolso. Confiar em Jesus, aceitar a salvação, é converter também para Ele nossos bens. É sentar em uma só cadeira! É servir a Deus através de nossas riquezas.

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