
O conhecido relato da tentação sofrida por Jesus no início da sua atuação evangélica, logo após seu batismo, pode ser interpetado sob diferentes prismas. (Sugiro a leitura de Mateus 4.1-10.) E você certamente já ouviu sobre vários deles. Falar em tentação – especialmente no Brasil pós-carnaval – parece sempre remeter às que se relacionam ao corpo e ao sexo. Também a questão da obediência e da fidelidade de Jesus ao seu Pai são aspectos muito destacados no estudo do texto. Sem ter a pretensão de ser exclusivo, quero destacar a tentação do poder.
Tim Hetherington é fotógrafo da Vanity Fair e sua fotografia de 16 de setembro de 2007 correu o mundo ontem (9/2/2008 – veja acima). Foi premiado pelo World Press Photo of the Year 2007 com o primeiro lugar. Ela mostra um soldado americano tentando recuperar as forças num bunker no vale de Korengal, Afeganistão. No comentário de um dos jurados se lê: “É a imagem da exaustão de um homem e a exaustão de uma nação, e estamos todos juntos nisso. É a figura de um homem no fim da linha”.
Vejo nas sombras desta foto o sorriso amarelo e cínico do governante da maior potência mundial – que também se diz cristão, e dos fundamentalistas – ; vejo os cínicos “cientistas” japoneses que caçam baleias e dizem fazê-lo para estudos científicos; vejo banqueiros e magnatas que concentram poder financeiro e riquezas permitindo que nações miseráveis se aniquilem com fome e sede; vejo políticos e burocratas brasileiros que – a exemplo do Sr. Marco Aurélio tap tap tap Garcia – não escondem o desejo de amealhar mais e mais poder, não importando às custas de quem, apenas importando as projeções pessoais.
O diabo sabe que o poder está nas mãos de quem detêm o conhecimento na manipulação e comercialização dos alimentos ( ...manda que estas pedras se transformem em pães... ), ou na pessoa que consegue projeção e segurança acima, muito acima das pessoas normais ( ... colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo... ) ou na pessoa que gostaria de ter todos os objetos de seu desejo aos seus pés ( ... tudo isto te darei se, prostrado, me adorares... ).
O exercício desta forma de poder é, sem dúvida, o grande causador de afastamento das pessoas do caminho da misericórida e da verdade que encontramos somente em Jesus Cristo. Quando pessoas caem na tentação de serem poderosas, sonegam o pão, sonegam a dignidade, sonegam a justiça – sonegam a vida.
Tentação – colocar a teste, fazer experiências (no grego: peirazo). Culturalmente esta palavra tem uma raiz que designa algo como se atravessar de maneira resoluta naquilo que é socialmente aceito a fim de fazer novas experiências pessoais. “Atravessar” aqui deve ter o sentido de andar na contra-mão do aceitável. Refere-se à competição entre as pessoas ou um “colocar à prova”. Neste sentido a primeira vez que o conceito aparece na Bíblia é quando Deus checa a fé e a obediência de Abraão pedindo que ofereça em sacrifício seu próprio filho Isaque. Não é um “atravessamento” na vida de Abraão?
[Para nossa curiosidade: No Novo Testamento este termo aparece 36 vezes, sendo 12 nos evangelhos sinóticos exclusivamente para a tentação de Jesus por Satanás ou pelos oponentes de Jesus (cf. Hb 2.18), uma vez em João, 5 vezes em Atos, 7 vezes em Paulo, 6 vezes em Hebreus, 4 vezes em Tiago e 3 vezes em Apocalipse.]
Jesus é alvo constante desta tentação/atravessamento, e a história mais evidente é esta da qual estamos tratando – mas não é a única. Os três evangelistas sinóticos apontam que o Espírito é que levou Jesus ao lugar deserto ao começar seu ministério público. Isto para ser tentado por Satanás, ou seja, para ser colocado à prova (cf. Gn 22.1). O evangelista Mateus (juntamente com Lucas) usa a palavra diabo – o acusador – como sujeito da tentação. Jesus é o objeto da tentação, da provação.
No entanto, todas as pessoas que são salvas por Jesus em Sua graça, tornam-se igualmente alvo do acusador, o diabo. Não é para menos que Jesus ensina a orar – cf. o próprio Ev. de Mateus – “...e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!” Gostaria de chamar a sua atenção para a relação entre tentação e poder que surge nesta petição da oração ensinada por Jesus.
O poder é o grande atravessador que desfaz os sonhos mais sinceros de dignidade, de justiça. Vejam a imagem desoladora da maior potência mundial retratada na foto vencedora (acima). Vejam a situação da política brasileira – que não está nem melhor e nem pior que sempre foi – onde hordas de eleitos se fazem na vida graças ao “poder que emana do povo”, segundo defendem. Vejam a sociedade brasileira que ainda reproduz claramente o estágio pré-civilizado da “casa grande e senzala” em todos os níveis sociais. Vejam a igreja cristã brasileira que, aos olhos de muitos, só faz sucesso onde o poder do convencimento pessoal é exaltado acima do poder da Cruz.
Onde fica o poder da Palavra de Cristo?
O poder é de Deus. É contra esta tentação que devemos lutar: a tentação de sermos mais do que o poder de Deus quer que sejamos. Sermos libertos do mal é não nos deixarmos atravessar pelos pensamentos e atitudes de auto-suficiência, de desrespeito à dignidade do nosso próximo. Cair na tentação do poder significa descumprir ou relativizar o mandamento de Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22)
O poder de Deus chama-se amor. Como vimos anteriormente, toda vez que alguém de nós, de alguma forma, sonega ao próximo o que lhe é devido para sua dignidade de vida, teremos solenemente caido na tentação contra a qual Jesus lutou do início ao fim de seu ministério terreno. O quanto isto é abrangente, nem precisamos agora aqui esmiuçar, não é mesmo? Se o tema “tentação” for visto apenas de forma moralista, nunca será suficientemente libertador para o exercício do amor cristão genuíno.
Para não cair em tentação, amemos nosso próximo e aproximemo-nos dele com compaixão e respeito. Anunciemos a vida nova em Jesus. Mostremos a nova chance de vida quando Jesus ocupa o centro da vida. Evangelizar e ser missionário – eis uma poderosa arma contra o atravessador e acusador Satanás. “Só o poder de Deus pode mudar teu ser...”
Só o poder de Deus pode mudar nossa realidade
... a fome pelo poder
em poder de amor.
... a tentação de ter mais
em ser mais amoroso.
... a atitude atravessada com o próximo
em reconciliação e perdão.
Vence a tentação e vive de forma vitoriosa quem ama e age a partir do amor transformador de Jesus Cristo.
Amém!
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