sábado, 9 de fevereiro de 2008

Em cima ou em baixo? Deus se revela!


Esta pregação foi partilhada com a igreja reunida em culto na Paróquia Cristo Redentor e Paróquia São Mateus no domingo dia 3 de fevereiro. Tenham uma abençoada leitura. P. Rolf Rieck

Recém casados! O casalzinho iniciou sua tão sonhada lua-de-mel numa cabana nas montanhas. Na primeira manhã os dois se propõe a fazer uma longa caminhada. Depois de longas e cansativas subidas, depois de ladearem precipícios perigosos, chegaram ao topo da montanha. Isso tudo no meio da tarde. O marido está extasiado: “Olhe só, minha querida, que vale encantador, olhe só aquele vilarejo estonteante... e aqui, que pintura esse riacho que corre entre as pastagens até encontrar a mata...!” “Ei, para com tudo isso”, xinga a esposa novinha, “primeiro você me arrasta por horas a fio aqui para cima e daí você acha que bonito mesmo é lá em baixo de onde viemos?...”

Êxodo 24.12 Então, disse o SENHOR a Moisés: Sobe a mim, ao monte, e fica lá; dar-te-ei tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos que escrevi, para os ensinares. 13 Levantou-se Moisés com Josué, seu servidor; e, subindo Moisés ao monte de Deus, 14 disse aos anciãos: Esperai-nos aqui até que voltemos a vós outros. Eis que Arão e Hur ficam convosco; quem tiver alguma questão se chegará a eles. 15 Tendo Moisés subido, uma nuvem cobriu o monte. 16 E a glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia, do meio da nuvem chamou o SENHOR a Moisés. 17 O aspecto da glória do SENHOR era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel. 18 E Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu ao monte; e lá permaneceu quarenta dias e quarenta noites.

A revelação de Deus

Temos diante de nós um texto típicamente de teofania (ou seria de epifania?). Deus se revela, Deus fala, Deus se manifesta de forma que Sua criação possa compreender o propósito divino. Nada sabemos de Deus a não ser aquilo que Ele mesmo deixa entrever nos textos e revelações que temos como legado em nossa Bíblia. E tudo são apenas fiapos daquilo que Deus realmente é e relamente quer.

Neste texto de Êxodo observamos dois planos desta revelação de Deus. Primeiro, no convida a olhar para baixo e, segundo, nos conclama a olharmos para cima. Na verdade a ordem pouco importa. Importa a alteridade, e dela precisamos reaprender para interagir neste mundo.

  1. Olhando para baixo (v. 12-15a)12 Então, disse o SENHOR a Moisés: Sobe a mim, ao monte, e fica lá; dar-te-ei tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos que escrevi, para os ensinares. 13 Levantou-se Moisés com Josué, seu servidor; e, subindo Moisés ao monte de Deus, 14 disse aos anciãos: Esperai-nos aqui até que voltemos a vós outros. Eis que Arão e Hur ficam convosco; quem tiver alguma questão se chegará a eles. 15 Tendo Moisés subido, ...

A tradição (a cosmovisão) dizia que Deus está em cima, no alto, de onde “gerencia” todas as coisas. É para lá que Moisés vai, com seu homem de confiança e sucessor Josué.

Embaixo ficam Arão e Hur para cuidar do povo. Nós sabemos onde isto vai dar: no bezerro de ouro. Mas isto não faz parte da nossa narrativa. Enquanto alguns sobem para receber a orientação de Deus diretamente, há aqueles que precisam ficar em baixo, dando conta de um povo rebelde e inseguro.

Creio ser muito restaurador e significativo para a Igreja Cristã hoje saber que há pessoas que sobem para os montes, mas há pessoas que ficam no vale para ajudar a tratar da realidade humana. Mas as pessoas no vale precisam trambém saber aguardar as que estão sobre os montes para trazer novas orientações. Conviver e interagir com a realidade humana somente é possível, de forma transformadora, se houver atenção para a vontade de Deus. O Criador de todas as coisas envia Sua vontade para que, aqui, no vale, seja observada e traduzida em vida plena.

  1. Olhando de cima (v.15b-18) ...uma nuvem cobriu o monte. 16 E a glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia, do meio da nuvem chamou o SENHOR a Moisés. 17 O aspecto da glória do SENHOR era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel. 18 E Moisés, entrando pelo meio da nuvem, subiu ao monte; e lá permaneceu quarenta dias e quarenta noites.

Moisés sobe, por assim dizer, ao encontro de Deus onde ficará um longo período e lá recebe toda a regulamentação legal de convivência do povo que volta a ser povo livre (lembremos que este mesmo povo viveu cerca de 400 anos de escravidão no Egito e não tinha mais o mínimo cacuete de liberdade responsável). É do alto que vem a orientação para que este povo até então escravo e que agora avança numa caminhada de 40 anos rumo à Terra Prometida. As leis são entregues lá do alto – mandato direto de Deus – para que sejam aplicadas cá embaixo. Receber a lei desperta em Moisés o sentimento de estar envolto na glória de Deus. Quem está embaixo também percebe isto, de maneira diferente, mas igualmente apoteótica – vêem o fogo consumidor de Deus.

O que, sinceramente, esperamos de cima? Isso, para nós, hoje, no século XXI, faz ainda algum sentido? Já não somos suficientemente autosuficientes? Nós sabemos tanto! Temos tanto poder! Podemos fazer as montanhas cuspir fogo quando bem entendemos. Sabemos impressionar as pessoas ao nosso redor com os poderes que aprendemos a dominar ou a desenvolver. Olhar para a vontade de Deus?

  1. Olhando como quem olha de cima (Mateus 17.1-9)...tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. 2 E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz ... 5b e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.

O texto da leitura do Ev. de Mateus mostra simultaneamente o que se passa em cima e o que acontece embaixo. João, Tiago e especialmente Pedro estavam extasiados com a experiência da montanha. Claro que não queriam mais voltar – afinal aquele longo e extenuante caminho... A nova teofania/epifania não deixava dúvida da glória de Cristo Jesus – a mesma que Moisés vira no alto da montanha da revelação da vontade de Deus. Mas e aqueles que não tinham presenciado esta cena? Como creriam?

No domingo passado o tema de pregação em nossa igreja foi o da “Palavra da CRUZ” (1Co 1.10-18). Viu-se que a loucura e absurdo da cruz é a revelação da salvação e libertação em Cristo. É assim que Jesus se revela: nem sempre na glória e na vitória, mas também no sinal da morte e da dor. E, especialmente, Jesus se revela na lei, na lei do amor.

De cima as coisas sempre parecem mais bonitas. Até mais seguras. Quando morávamos no Rio de Janeiro fazíamos com gosto a experiência de ver as belezas daquela terra de cima. Lá em cima a violência não é tão perceptível. Ao descer da montanha, ao novamente ser deparado com a realidade do vale, os discípulos de Cristo ouvem a voz inconfundível “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.” Nós, discípulas e discípulos de Cristo, estando no vale ou na montanha, precisamos ouvir esta voz e testemunhar a respeito da revelação de Deus. Nós temos recebido a revelação! Não é isto que nos é presenteado em cada nova pregação? Temos ido compartilhar, anunciar? Temos sido pessoas missionárias desta boa nova?

Carnaval! As fantasias mais uma vez deslumbraram pela sua inventiidade e beleza. Mas são fantasias. Tempo da Quaresma! Esta é a realidade, esta é a revelação de Deus.

Que Deus nos use como seus intrumentos de revelação e anúncio.

Amém!

Nenhum comentário: