segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Diálogo com Nicodemos ( I )

Prédica proferida na Paróquia São Mateus no 2º Domingo da Quaresma. Sejam abençoados/abençadas por esta leitura.
P. Rolf Rieck

Quando tomamos o texto de João 3.1-21, temos diante de nós uma das mais impressionantes histórias da relação do Salvador Jesus com pessoas que lhe procuraram. Mais, temos o supra-sumo do Evengelho, mostrando integralmente o projeto de Deus para a recondução da humanidade no caminho do sentido da vida. Recomendamos a leitura deste texto agora. Não se trata do inusitado de uma cura física, ou de um retumbante milagre, mas de um diálogo que revela o todo do propósito do Messias na face da terra. Tudo isso acontece na primeira visita que Jesus faz a Jerusalém e é resultado da repercussão que seus feitos têm nas altas rodas de influência da cidade. É assim que acontece o

Diálogo com Nicodemos (I).

A título de introdução, observamos algumas particularidades que chamam a atenção neste diálogo. 1) Nicodemos procura por Jesus à noite. Isso não significa necessariamente que quisesse esconder-se de Jesus. Era mais agradável conversar à noite. 2) O homem da elite pensante – Nicodemos era teólogo – procura um andarilho galileu e faz a honra chamando-o de Rabi – meu grande mestre, meu ilustre senhor. 3) Afirma que ele, Nicodemos, e outros conhecidos seus sabiam que este andarilho vinha da parte de Deus. Estava bem informado como teólogo. 4) Não perguntou coisa alguma a Jesus. Faz apenas uma afirmação investigativa a respeito daquilo que ele e outros já haviam previamente discutido e, quem sabe, até visto. 5) Jesus dá uma resposta a uma pergunta não feita.

Anothen é a palavra-chave desta primeira parte do diálogo entre os dois. Jesus, ao responder uma pergunta não feita (v3), olha diretamente dentro da alma de seu interlocutor e sabe exatamente o quê está por detrás daquela visita. Nicodemos e os seus companheiros de discussão teológica haviam detectado sinais evidentes de que este Jesus tinha poderes especiais. Que este Jesus tinha todas as chances de ser o Messias, o Cristo.

A questão, para Jesus, para o Salvador da humanidade, é muito mais profunda. Jesus não está interessado em juntar pessoas que o considerem uma divindade, ou um benfeitor da humanidade. Jesus não está aí para induzir as pessoas para que fiquem melhorzinhas, que se aperfeiçoem em boas ações (Como o espiritualismo confunde estas coisas!), que mostrem seu lado bom apenas quando precisam de algum serviço da igreja ou quando estão próximas a pastoras e diáconos.

Anothen é a palavra da transformação radical e definitiva. Apresentar-se como alguém vindo de um lugar mais alto, que vem do céu ou de Deus. Alguém que faz as coisas novamente do início, mais uma vez. Anothen não é melhorar, dar uma ajeitada aqui, outra ali, adptando-se à uma nova contingência. Farisaicamente muitas pessoas tentam fazer isso mas, mais cedo do que gostariam, são desmascaradas. Nicodemos, sem querer, foi desmascarado, embora fosse uma ótima pessoa.

Quando Nicodemos percebe a mudança do rumo da conversa, fica atordoado. Nascer de novo? Voltar ao útero materno, ainda mais já sendo velho? Do alto da sua sabedoria não entendeu o que aquele andarilho de poucas letras quis dizer com “nascer de novo”, ou “nascer do alto”. Jesus o ajuda a entender as palavras, usando a ilustração da “água” e do “espírito” (v5).

Quero também ilustrar: Temos vivido dias quentes e úmidos. Quando alguém nestes dias trabalha pesado e começa a suar aos cântaros, quando o pó e a sujeira grudam em sua pele e quando tudo isto mostra que o corpo cansou e que o desodorante já venceu há tempo, então esta pessoa se decide por um banho. “Agora me sinto como que nascido de novo”, diz após o banho refrescante. A água lava todo o suor, tira a sujeira, refresca e revigora. A exaustão dá lugar ao ânimo recobrado. Que bênção esta água.

Nicodemos sabia exatamente o efeito da água num dia de exaustão pelo calor e pó. Era com água nos pés que suas visitas também eram recebidas, conforme a tradição. Era a água da purificação que obedecia um longo e complicado ritual. Mas o profundo conhecedor da palavra não entendeu a comparação de Jesus. Mas, novamente, não se deve entender a água como um meio de tirar uma sujeirinha aqui, outra ali. Jesus fala de limpeza radical - anothen.

Água e Espírito! Jesus não está se referindo ao batismo, mas se você quiser fazer a comparação, lhe pergunto: você realmente se colocou debaixo do lavar restaurador e transformador de Deus quando de seu batismo? Você pode dar esta resposta consciente? Por isso Jesus fala da “água” e do “espírito”. Com a água regeneradora de Deus vem o Seu Espírito consolador e ensinador. É uma mudança radicalíssima na forma de se autocompreender - anothen.

“...mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”. (Tt 3.5-7)

Jesus explicita isto melhor ainda ao seu interlocutor. Há um abismo brutal entre carne e espírito. Há um abismo humanamente intransponível que separa o entendimento do “melhorar um pouquinho aqui e ali” e o anothen- “nascer de novo” ou “nascer do alto”. Nascer da carne – o que todos nós seres vivos experimentamos no grande dia do nosso nascimento – é bem diferente do “nascer do alto”, do espírito. E há um só caminho para entender isto – foi assim também com Nicodemos – quando deixamos Jesus iniciar o diálogo conosco, mesmo ali onde não Lhe perguntamos nada.

Jesus tem formas inusitadas de iniciar um diálogo conosco. Pode ser que seja a partir desta pregação. Ou poderia ser a partir do abraço que alguém lhe deu hoje. Ou mesmo como conseqüência de alguma doença, decepção, frustração... De que forma Jesus quer iniciar o diálogo com você hoje?

Jesus tem muito a lhe dizer. Por isso não conseguiremos terminar hoje nossa reflexão sobre este texto. No próximo domingo tem mais.

Leve, porém, esta palavrinha em seu coração: “nascer do alto”, genneten anothen

Amém!

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