quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Encontros com Deus


Abaixo, transcrevo a última prédica que proferi na nossa Paróquia, por ocasião do 8° Domingo após Pentecostes, no dia 22 de julho de 2007. (P. Renato Luiz Becker)

A nossa vida vai tomando rumo a partir dos encontros e desencontros que temos com Deus. Na liturgia pudemos ler e ouvir o relato do encontro da Marta e da Maria com Jesus. Agora, em Gênesis 18.1-15, vou ler a respeito do encontro que Abraão e Sara tiveram com o Criador...

18.1 - Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. 18.2 - Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, prostrou-se em terra 18.3 - e disse: Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo; 18.4 - traga-se um pouco de água, lavai os pés e repousai debaixo desta árvore; 18.5 - trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, visto que chegastes até vosso servo; depois, seguireis avante. Responderam: Faze como disseste. 18.6 - Apressou-se, pois, Abraão para a tenda de Sara e lhe disse: Amassa depressa três medidas de flor de farinha e faze pão assado ao borralho. 18.7 - Abraão, por sua vez, correu ao gado, tomou um novilho, tenro e bom, e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo. 18.8 - Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles; e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram. 18.9 - Então, lhe perguntaram: Sara, tua mulher, onde está? Ele respondeu: Está aí na tenda. 18.10 - Disse um deles: Certamente voltarei a ti, daqui a um ano; e Sara, tua mulher, dará à luz um filho. Sara o estava escutando, à porta da tenda, atrás dele. 18.11 - Abraão e Sara eram já velhos, avançados em idade; e a Sara já lhe havia cessado o costume das mulheres. 18.12 - Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo consigo mesma: Depois de velha, e velho também o meu senhor, terei ainda prazer? 18.13 - Disse o SENHOR a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Será verdade que darei ainda à luz, sendo velha? 18.14 - Acaso, para o SENHOR há coisa demasiadamente difícil? Daqui a um ano, neste mesmo tempo, voltarei a ti, e Sara terá um filho. 18.15 - Então, Sara, receosa, o negou, dizendo: Não me ri. Ele, porém, disse: Não é assim, é certo que riste.

QUATRO TIPOS

Os textos que lemos apresentam-nos, em dois momentos, quatro pessoas parecidíssimas. No primeiro, Deus se faz presente no diálogo dos três homens que visitam Abraão. O Pai da Fé hospeda e serve àqueles que o visitam da melhor forma possível. Já a sua esposa Sara, fica ouvindo detrás da porta com sorriso debochado no rosto. No segundo vemos Jesus, o Filho de Deus, dialogando com as conhecidíssimas Marta e Maria. Marta dá muito de si praticando a hospitalidade, enquanto que sua irmã Maria só consegue prestar atenção.

Os dois momentos são marcados pelo acolhimento que as quatro pessoas dão a Deus. Assim, a Bíblia nos coloca diante de quatro possibilidades de se praticar a fé cristã. Abraão é o crente convicto. A sua fé está encarnada no seu corpo. É por causa desta fé que ele será conhecido como um bom exemplo a ser seguido pelas futuras gerações.

Sara é aquela mulher que observa a fé do seu marido meio escondida, detrás da porta. É uma mulher experimentada, prática. Existe alguma coisa entre a fé que seu marido professa e ela, uma coisa que ela não sabe explicar direito. Ela acha graça da possibilidade de uma pessoa avançada em dias ainda poder gerar uma criança. Para ela Abraão é um sujeito primitivo que consegue ver e sonhar com fatos que, cientificamente, são impossíveis de acontecer. E assim ela vai deixando a vida lhe levar.

A dona Marta é uma mulher de fé, uma senhora que tem sua casa aberta para o seu Senhor. Para ela a fé precisa impulsionar as pessoas naturalmente ao trabalho. Ela quer fazer passar esse seu jeito de ser e de crer para as pessoas que lhe estão próximas. Ela encara as outras pessoas cristãs e pensa, sinceramente, que elas nunca serão completas se não agirem como ela age no dia-a-dia.

Já a jovem Maria escolheu – conforme as palavras do próprio Jesus - a melhor parte. Maria tem inseguranças pulsando dentro do peito. Ela precisa encontrar bons alicerces para, finalmente, edificar sua fé que é fraca. Ela quer se encontrar interiormente como pessoa e, para tal, não quer saber de regras e nem tampouco de éticas de comportamento e ou de engajamento. Ela busca esse intento com seu jeito simples de ser, enquanto se aproxima de Jesus. É dessa forma que ela consegue encontrar um sentido para a sua vida.

Dá para dizer-se que Marta e Abraão, Sara e Maria são muito parecidos entre si. Abraão como Marta engajam-se, dão de si no trabalho e procuram fazer o melhor que podem para os seus hóspedes. Já Sara e Maria (de quem não se ouve absolutamente mais nada a não ser aquilo que Jesus falou dela no texto) só escutam. Há uma enorme diferença no ato de ouvir de cada uma destas duas mulheres.

Deus abre um diálogo com Sara quando Lhe pergunta sobre o seu riso. Ela responde mentindo: - “Eu nao ri!” – “Sim! Você riu”! – reage Deus. O ouvir de Sara é um ouvir sem muita seriedade. Ela não ouve Deus como se sua vida fosse depender daquela audição. Biblicamente falando daria para se dizer que este jeito de ouvir tem a ver com a nossa carne, tem a ver com aquilo que é caido em nós. E é justamente este jeito de ser que muitas vezes apresentamos, que se coloca entre o nosso ouvido e a voz de Deus, quando Ele fala conosco.

Maria, ao contrário de Sara, ouve tudo, absorve o que Jesus fala. Jesus a elogia por causa deste seu jeito de ser. Maria age assim porque precisa da Palavra de Deus para começar a viver. Maria é mais jovem do que Sara. Ela ouve Deus diferente do que a Sara O ouve. Ela é curiosa e aberta para a novidade. Ela é cheia de admiração pelo Mestre e vai ao seu encontro sem qualquer reserva, sem pôr um dos pés para trás.
Abraão e Marta também têm diferenças. Abraão pertence ao time dos antigos baluartes da fé que até construiam altares para Deus. Marta já pertence a uma geração bem mais nova de pessoas. Ela adora a Deus em espírito e em verdade. Abraão chega a negociar com Deus para que o julgamento não aconteca naqueles dias. Deus o leva a sério e o tal julgamento tem seu começo quando Jesus assume todas as culpas sobre Si e, com a cruz, traz nova possibilidade de vida como presente.

CONCLUSÃO

A tradição sempre identificou Maria com a pecadora, com a prostituta de João 8. Não creio nisso. Creio, isto sim, que esta tradição queira exprimir que só a pessoa que conhece a sua própria fraqueza e que não esconde a sua culpa é que pode se chegar mais perto de Deus. Os sadios nunca precisam precisam de médico, só os doentes. Só poderemos nos aproximar de Deus se estivermos de mãos vazias. Tudo aquilo que carregamos nas nossas mãos que não seja Deus, coloca-se, potencialmente, entre nós e Deus que, a toda hora, quer se fazer de hóspede na nossa vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro P. Rolf. Visitei seu Blog e gostei da apresentação... Parabéns. Que Deus lhe de forças para manter esta linha de informação. São de empreendimentos assim que necessitamos para a divulgação da Palavra. Abraços Fraternos, Nivaldo Klein